Suleiman Abubakar, 17 anos, notou logo ao acordar que tinha sido enganado. Todos os documentos que identificavam o ganês, o pouco dinheiro que tinha levado do país-natal e o celular com os contatos dos parentes foram furtados pelo homem que lhe convencera a jogar futebol em algum lugar no Acre.
A mais de 6.000 km de casa, o adolescente que percorrera longo caminho até se refugiar no Brasil é um dos que podem se beneficiar por uma decisão que a Fifa tomou logo após a Copa do Mundo a respeito desse tipo de atleta.
Antes de julho, para conseguir trabalho no Brasil, um jogador precisaria do aval das federações ganesa e brasileira, caso contrário, sua transferência não poderia ser concretizada. A sorte de Suleiman é que a gestão do suíço Gianni Infantino tem feito mudanças em suas regras para facilitar a regularização de refugiados. Agora, em caso de refúgio, o mesmo jogador poderá assinar contrato profissional só com a assinatura da federação do novo país, segundo Americo Espallargas, advogado especializado em direito desportivo do escritório CSMV. Uma pequena compensação depois dos muitos dissabores que a vida impôs ao imigrante, que não fala nada de português.
O trajeto de Suleiman, órfão dos pais, começou ao deixar os avós e dois casais de irmãos gêmeos numa zona rural para realizar o sonho de ser jogador de futebol. Ele conta que foi morar com um tio numa cidade, com escola e um clube de futebol, em que pretendia jogar profissionalmente. Mas o tio, agressivo e descontrolado, o maltratava. As costas carregam marcas eloquentes da violência. O sonho do futebol precisava mudar de cenário, e Suleiman diz que “uma pessoa o ajudou” a voar para o Brasil, sem dar mais detalhes.
Desembarcou no Galeão em busca da cidade universitária de Tubarão, em Santa Catarina. Ele procurava a comunidade ganesa que ouvira existir no município quando foi enganado por um impostor e convencido a viajar de ônibus por quatro dias até chegar ao Acre. Lá, a polícia o instruiu a retornar ao Sul, onde foi acolhido por um abrigo em Criciúma e, depois, na instituição Bem Viver , em Tubarão. Sua sorte começou a virar quando o Clube Atlético Tubarão o aprovou como profissional.
Questão humanitária
O imbróglio agora é de ordem burocrática. O Tubarão lhe oferece abrigo em seu alojamento e assistência financeira, mas só pode formalizar a contratação depois que toda a documentação de Suleiman for regularizada, como imigrante e como atleta. Não é uma missão banal.
Auxiliado pelo clube e por assistentes sociais, Suleiman teve pedido de refúgio enviado por meio da Polícia Federal para o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), subordinado ao Ministério da Justiça, a quem caberá decidir se ele poderá ficar no Brasil. O problema é que tal processo pode levar até três anos, e o rapaz não tem tanto tempo. Assim que fizer 18 anos, em 10 de outubro, Suleiman não poderá ficar mais no abrigo Bem Viver e precisará ter seu vínculo formalizado com o Tubarão para morar em seu alojamento.
— A gente trata desse caso específico como uma questão humanitária, mais até do que técnica. Hoje temos 80 atletas no nosso alojamento, e a ideia é trazê-lo e mantê-lo por alguns anos para ajudá-lo a se tornar um jogador. Se ele não conseguir, pelo menos terá sido uma contribuição para que se torne um cidadão — explica Júnior Chávare, diretor de Operações e Novos Negócios da K2 Soccer, que gerencia o clube.
Há urgência pela regularização do contrato com o Tubarão, mas no futebol existem outros procedimentos para que refugiados virem profissionais. Primeiro, o clube precisa do aval da Fifa para validar o refúgio do atleta; depois, leva a documentação para a CBF. Só então o registro é feito. Com as determinações da Fifa, o Tubarão é otimista.
— No contexto do Fifagate e do questionamento de violação de direitos nas obras da Copa-2022, a Fifa tem tentado ficar em dia com essas questões. Ela alterou o regulamento para constar que atletas que estejam em situação de refúgio não precisem passar por um trâmite burocrático tão custoso, como é normalmente — explica Americo Espallargas.
só um liberado até agora
Desde que a nova regra da Fifa passou a valer, a CBF liberou a inscrição de um jogador da Liga Joinvilense. O caso de Suleiman, que ainda não chegou à confederação brasileira, aguarda a liberação da entidade internacional.
No Brasil, refugiados têm status similar ao de jogador nacional, portanto, não ferem a limitação de cinco estrangeiros por equipe. A medida foi adotada pela CBF em novembro de 2016 para estimular o abrigo de refugiados. O país, hoje, possui um número relativamente baixo de refugiados em situação regular e uma longa fila de esperançosos.
Enquanto aguarda, Suleiman treina no Tubarão e tenta se integrar aos demais jogadores. Mesmo com a aula de português uma vez por semana, frequentemente fica perdido em campo, sem entender as instruções. O treinador, então, o puxa de canto e passa orientações em inglês.
Suleiman ainda luta contra a saudade. Retomou o contato com a família depois que o clube deu acesso à internet. Diz sentir falta dos avós e dos irmãos. Mas o sonho do volante destro é se notabilizar como o gremista Ramiro, a quem é comparado, e vencer a última fronteira que traçou em Gana.

