FRANÇA Entre agosto e março, a rotina do veterinário Ricardo Nabas é caótica. É durante esse período, quando há intensa luz e calor, que as éguas passam pela estação de monta. A cada cio, o especialista em reprodução equina, que trabalha sozinho, emprenha até 130 animais e realiza até 60 transferências de embriões. É hora de lucrar: ele cobra R$ 2 mil pelo sêmen dos cavalos, R$ 6 mil para transferir um embrião e R$ 12 mil pelo óvulo de uma de suas éguas:
— E não dou conta. Precisaria de mais matrizes para atender à demanda.
Ricardo faz parte de um emergente grupo de criadores de cavalos de trote — possui dois machos importados dos EUA e 16 fêmeas —, mas é exceção: a maioria de seus pares despeja dinheiro no hobby sem perspectiva de retorno.
Um desses investidores é o também veterinário Guilherme Lopes. Dono de seis animais de raça e de outro tatuado na perna, ele gasta ao menos R$ 5 mil por mês para mantê-los. Comprar um deles, porém, pesa muito mais no bolso: por alto, são desembolsados 20 mil dólares (dos quais 75% se referem a tributos) para importá-lo dos EUA.
— Nunca ganhei dinheiro com cavalo, e meu patrimônio seria três vezes o que é se eu não os tivesse — conta.
Mas esse cenário de amadorismo começou a mudar graças a uma ajuda da França. Guilherme e Ricardo integram um grupo de dez criadores que viajaram à Europa, no mês passado, para visitar haras, centro de treinamentos e hipódromos. Em Paris, assinaram um acordo de cooperação com a LeTrot, organização responsável pelo trote na França. O acordo foi firmado durante uma cerimônia no hipódromo de Vincennes, promovida em parceria com a PMU, empresa de apostas que, desde 2015, também opera no Brasil.
— Precisamos do francês porque o brasileiro é carente de informação. Nós fazemos cavalo correr vendo YouTube. Ninguém nos ensinou como funciona. Então, pesquisamos na internet como treinar, quanto tempo um cavalo trabalha por dia, com que idade pode competir — explica Guilherme, superintendente da Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Trotador (ABCCT), órgão responsável pelo registro genealógico dos animais e que responde ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
COMO VIRAR O JOGO
Graças à parceria, os criadores poderão importar cavalos franceses — hoje, a principal raça no Brasil americana. Os primeiros animais, ainda sem data para chegar no país, serão criados de acordo com as diretrizes da LeTrot. Quando cruzarem com os já existentes no Brasil, seus filhotes passarão a seguir as normais nacionais.
Essa mistura visa a extrair as virtudes das duas raças: a americana se destaca em provas de tiro curto, já a francesa tem como virtude a adaptabilidade, tanto aos solos quanto às distâncias das corridas. O europeu também é, na maioria dos casos, criado em condições mais parecidas com a realidade brasileira: são preparados em casa e levados para os hipódromos nos dias das corridas. Nos EUA, é comum que sejam mantidos permanentemente nos locais de disputa, o que aumenta os custos.
Fazer a conta fechar, aliás, é o próximo desafio. Os envolvidos no projeto correm atrás da autorização para a exploração das apostas nas corridas de trote, realizadas hoje apenas de forma informal e amistosa. Além de garantir dinheiro aos apostadores, o jogo permitiria que criadores, profissionais da montaria e hipódromos lucrassem e reinvestissem no turfe.
— O Brasil é um grande mercado, com muita margem para crescimento — afirma Alain Resplandy-Bernard, CEO da PMU, que já investiu mais de R$ 40 milhões na operação no país.
O objetivo é popularizar a aposta. Para isso, a empresa repete a estratégia que adota na França: aproximar-se dos por futebol. Se lá é patrocinadora da seleção e do PSG, aqui apoia o Carioca.
— Precisamos provar que o investimento pode virar lucro. No Brasil, ainda tratamos como bicho de estimação. Temos que transformar em negócio — indica Guilherme.

