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Flávio Lauria

Poder Desmoralizado, Vergonha Já

Flávio Lauria
Por Flávio Lauria
26/08/2022 15h15 — em Flávio Lauria

Tarefa das mais difíceis e arriscadas para o articulista é criticar o Legislativo nos termos que ele merece. Nunca este poder esteve tão desmoralizado e tão desarticulado no Brasil. Jamais seu prestígio caiu tão baixo na avaliação popular, nem deputados e senadores exibiram com tanto despudor seu baixo nível moral e intelectual, sua cupidez pelo mando, sua irresponsabilidade cívica e sua arrogância corporativa.

Nunca o Congresso foi tão medíocre, sem uma única voz que interprete os anseios coletivos, acima da divisão dos partidos. Os parlamentares estão perdidos em questões menores, ou empenhados em investigações intermináveis e inconclusivas, esquecidos de que estão no Parlamento para legislar. O risco deste tipo de denúncia é ser mal-entendida.

Ouvidos mais afoitos podem concluir que a censura se dirige ao Congresso como instituição, e, por extensão, à democracia como forma de governo. Volta e meia, algum simplório clama pelo fechamento do Congresso, pela suspensão da democracia e até pela volta dos militares, como se estes soubessem governar sem querer transformar o País numa caserna. Ora, até as pedras sabem que o Parlamento constitui o órgão principal da democracia, pois é dele que saem as leis livremente discutidas, e que fora da democracia não há salvação. Nem por isso está dito que a democracia é boa em si mesma.

A democracia é a única forma de governo possível em nosso tempo porque não há outra em vigência, isto é, dotada de legitimidade, mas isso não significa que a democracia é boa, ou que reúna as virtudes ideais do sistema político perfeito. É isso que os extremistas de direita não entendem, rejeitando a democracia por conta de suas imperfeições. Com o mercado ocorre outro tanto. Fora do mercado não há salvação, o que não quer dizer que o mercado é bom. É isso o que não entendem os extremistas de esquerda. O perfeccionismo leva, fatalmente, ao extremismo.

O extremismo isola seus militantes, e isolado não se faz política, a não ser a política do desespero. Lembro de uma entrevista do senador e falecido homem público, meu professor na Faculdade Jefferson Peres, culto e inteligente, dotado de liderança, Jefferson poderia candidatar-se, vantajosamente, para qualquer posto político, inclusive para governador do Amazonas. Nessa entrevista, replicou que sempre achou a política a ocupação mais nobre que existe, mas que, por outro lado, considerava os políticos brasileiros a gente "mais atrasada" do País, sem exceção de partido algum. É disto que se trata. O político brasileiro é tema para a paleontologia, que estuda os fósseis.

O político brasileiro constitui um espécime jurássico, que deveria figurar nos museus de história natural e não no Congresso. Claro que um ou outro parlamentar sabe preservar sua dignidade em meio à baixaria. Em todo partido existe sempre uma elite de alto nível intelectual e de conduta moral irrepreensível, mas são casos isolados, que não dão o tom da categoria. Para um Ulisses Guimarães ou para um Jefferson Peres, existem cem Robertos Jefferson. Roberto Jefferson, o chefe dos hunos parlamentares, teve como maior título de glória a defesa intransigente de Fernando Collor quando do movimento para sua cassação. Agora está preso domiciliar, mas está, e é candidato a Presidência.

Na expressão definitiva de Dora Kramer, o Legislativo não passa, hoje, de um "Poder à deriva", sem competência nem para resolver a questão meramente regimental de quem deve presidir as sessões conjuntas do Congresso. Mas tem nas mãos a Camara Federal o Orçamento Secreto, que tira do Presidente da Republica, os poderes para negociar. Em compensação, não se sabe por que tipo de manobras obscuras nossos bravos representantes do povo carioca escolheram o deputado Daniel Silveira, em total menosprezo pelas reações da opinião pública. Nem se diga que a representação "reflete" o povo.

Em muitos casos, como nos espelhos deformantes, nossa imagem é cruelmente maltratada. Em suma, o chamado "baixo clero" do Parlamento é manada preguiçosa e inoperante, que só se põe em movimento à força de muita pressão da sociedade. Por isso não representa exagero quando digo que devemos organizar "um movimento nacional do tipo, magnitude e proporções da campanha das Diretas Já!", para acabar, pelo menos, com a vergonhosa impunidade parlamentar para crimes comuns.

A sugestão merece ser encampada, difundida e posta em prática antes que seja tarde. Seu lema poderia ser Vergonha Já!

Flávio Lauria

Flávio Lauria

Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.

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