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Espaço Crítico

A escuta médica piorou muito

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Por Flávio Lauria
11/05/2026 23h50 — em Espaço Crítico

Fiz grande parte deste artigo, em meados de 2015, mas reitero o conteúdo hoje. Tenho um plano de saúde, e incrivelmente as consultas marcadas são canceladas e remarcadas, não importando o estado de saúde do paciente(cliente). Quando forçosamente procuro um médico, já em últimas circunstâncias, ligo para minha sobrinha Taíssa Jezini, e para meu amigo e irmão Geraldo Catunda. Tenho comentado com alguns amigos médicos que tenho, sobre a relação médico paciente.

Os médicos em sua grande maioria que têm consultório, fazem o paciente esperar, mesmo com hora marcada, pelo prazer de se fazer esperar, é o que imagino. Aqui modifico mais uma vez o artigo anterior.

Conversando com uma amiga que está no último período de medicina, que é vinho de outra pipa, já se preocupa com o risco de desvirtuar-se como profissional, quando estiver solta na buraqueira do ganhar o pão como médica. Perguntou-me por que sou tão interessado, tendo em vista alguns antigos artigos que fiz, na relação médico-paciente. Porque, a qualquer momento, como aconteceu esta semana, meu corpo pode forçar-me a entrar nesta delicada parceria assimétrica, onde somente os hipocondríacos desejam permanecer. Como pacientes, perdemos liberdade e precioso tempo de viver, estragado em filas - de pé ou sentados - nos postos de saúde, consultórios e serviços de diagnósticos.

A consulta médica é a coisa mais importante do Mundo para o paciente com dor ou dúvida. Para o médico, é apenas um rotineiro e repetitivo atendimento, entre dezenas que tem de fazer diariamente. Não admira que haja um descompasso entre a atenção atenciosa que o paciente espera e o tipo de atenção que o médico pode ou aprendeu a dar. A escuta do médico piorou depois dos exames computadorizados. Mesmo quando correta, a relação médica nunca é confortável para o paciente. Somos dependentes e vulneráveis, como em algumas outras interações profissionais.

Por isto, minha prece noturna é: Obrigada, Senhor, por mais um dia sem precisar de médico, nem advogado, nem eletricista, nem encanador. Adoraria acrescentar "nem provedor de Internet", mas não dá. Mais do que no tratamento clínico, a perda de autonomia é gritante no ato da hospitalização, que nos despe ritualisticamente da nossa identidade: lá se vão relógio óculos. Tiram-nos a roupa toda e a substituem por uma bata genérica e sumária. Amarrada na frente ou atrás, deixa-nos o corpo disponível para o toque inquiridor, a qualquer hora e por qualquer lado.

Com raras exceções, os médicos não nos envolvem na conversa sobre o que mais nos diz respeito: nosso estado de saúde. De tão gentis, as enfermeiras exageram, ao infantilizar o discurso, mandando virar a cabecinha ou abrir a boquinha. Acordam-nos a qualquer hora para tomar remédio, dão-nos comida e banho em horários requeridos pela rotina da instituição. Entre aparelhos e formulários, sumimos como adultos, sem vez nem voz na liturgia da cura. Mesmo sadios, não escapamos de nos relacionar com médicos, devido aos check-ups anuais. Tenho muita sorte de contar com amigo como Geraldo Catunda, experiente e suave, que há mais de 50 anos me escuta com cuidado e toma providências, se necessário, mas não inventa doença nem tratamento, e minha sobrinha Taíssa, que mesmo sendo gastroenterologista, tem conhecimento holístico da medicina, indicando-me se for o caso, especialista.

Um professor de ortopedia contou-me que insiste com os alunos para tratarem o paciente pelo nome, não pelo prontuário. Alguns acham sua insistência uma "frescura". Seria melhor que estes desistissem do curso. Indigentes ou conveniados, somos José, Tereza, Maria, únicos no Mundo. Na liturgia da cura, não temos o poder, mas somos a razão de ser da medicina.

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Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Escola Superior Batista do Amazonas(1982) e especialização em Intensivo de Pós Graduação Em Adm. Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública(1993). Atualmente é PROFESSOR da Escola Superior Batista do Amazonas e professor titular da Faculdade Nilton Lins. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração de Empresas.

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