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Projeto incentiva alunos de escola de São Paulo a buscarem suas origens

SÃO PAULO - A maior lembrança que a professora de História Rosely Marchetti Honório, de 56 anos, tem é a de seu avô, Antônio, retirando fotos da família italiana de uma caixa de sapato e contando histórias. A experiência de viver numa família de imigrantes fez com que a professora de uma escola municipal de São Paulo tivesse um olhar mais atento para a causa dos estrangeiros que buscam uma nova vida no país.

A iniciativa de repetir as narrativas do avô e incentivar os alunos a buscar suas próprias origens quebrou preconceitos e rendeu à professora uma vaga na final da 20ª edição do Prêmio Educador Nota 10, com o projeto “O migrante mora em minha casa”. Rosely leciona numa unidade onde cerca de 20% dos alunos do ensino fundamental são imigrantes, descendentes ou refugiados.

— A escola ainda tem aquele ensino tradicional. Precisamos aprender por meio de algo da nossa vida, que dê vida à aula, e não trabalhar somente um conteúdo do século XV, por exemplo, totalmente descolado da nossa realidade — observa Rosely, que ano passado ficou entre os 20 primeiros no mesmo prêmio com outra proposta que também tratava dos temas tolerância e respeito.

O prêmio é uma parceria entre os grupos Abril, Globo, Fundação Victor Civita e Fundação Roberto Marinho. Os 10 finalistas recebem R$ 15 mil e um vale-presente de mil reais para a escola. Há ainda a escolha do Educador do Ano, que ganhará um vale de R$ 5 mil para a instituição onde trabalha.

Nascida no bairro da Mooca, na Zona Leste, e há 35 anos lecionando no Estado, Roselynunca havia atuado com pessoas provindas de locais tão variados até chegar na Escola Municipal Infante Dom Henrique, no Canindé, na Zona Norte, no início de 2016. Aquela região é considerada um dos maiores polos da indústria de confecções do país e emprega mão de obra imigrante em situação precária.

Dentro deste cenário, ela reconheceu preconceito entre os alunos e passou a promover trabalhos em que entrelaça conteúdos históricos com a vida de cada um dos 64 jovens entre 11 e 12 anos distribuídos nas duas turmas do 6º ano. A ideia inicial era mostrar que todos temos pelo menos um migrante na família, alguém que se desloca dentro do próprio país em busca de melhores oportunidades, e a partir daí fazer um paralelo com os imigrantes e refugiados.

Entre as atividades estava a construção da árvore genealógica de cada família, além de sessões de filmes e fotografias que citavam situações de preconceito, escravidão e racismo.

Depois que todos descobriram suas origens — a maioria, atesta Rosely, nem sabia onde a mãe tinha nascido — foi a vez de levar as duas turmas ao bairro vizinho Pari, onde há grande concentração de bolivianos, além de abrigos para imigrantes. Ali também foram fechados locais onde estrangeiros trabalhavam com confecções em condições análogas à da escravidão. O trabalho de conclusão da turma foi distribuir panfletos sobre o tema pesquisado e analisado.

— Eu ouvia os alunos de família brasileira falarem para os estrangeiros que eles estavam aqui para roubar nossos empregos e por isso não podiam reclamar de nada, inclusive dessas condições (análogas à da escravidão). Não queriam nem fazer trabalhos juntos. Hoje a turma é mais unida — conclui Rosely, que está repetindo a experiência esse ano.

A transformação foi bem significativa para o tímido Rene Benicios, 14 anos, filho de bolivianos e que trabalham numa confecção no Pari.

— Dá raiva quando a gente fica sabendo que existe esse tipo de coisa, mas não tem o que fazer. Já me xingaram quando eu estava na 4ª série por eu ser boliviano e isso me afastou das pessoas. Ninguém falava comigo. Hoje não implicam, melhorou muito — analisa Benicios, observado pela colega de classe Yamelin Nena, de 13, também filha de bolivianos.

— Nunca senti preconceito pela minha origem, mas também não sabia que ainda hoje existe escravidão. Foi muito importante fazer esse trabalho — conta Yamelin.

A cerimônia de entrega do Prêmio Educador Nota 10 acontece no dia 30 de outubro, com registro de recorde de inscrições: 5.006 projetos.

— Se ganharmos vamos fazer um passeio bem legal, de repente um piquenique no Jardim Botânico. Eles são muito humildes e não fazem esses programas — idealiza Rosely.

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