RIO - Com 26 anos, o engenheiro Pedro Bittencourt decidiu levar adiante uma ideia. Aplicou os conceitos na tese de doutorado e dois anos depois, com os sócios Raphael Guimarães e Thiago Holzmeister, conseguiu produzir os primeiros 150 equipamentos, por meio de financiamento coletivo (). Surgiu assim a GreenAnt, uma startup de eficiência energética, que usa a inteligência artificial para identificar, em reais e a cada segundo, o gasto dos equipamentos com energia nas residências e corporações. “A tecnologia pode levar valor à sociedade e às cidades. Acredito nesse caminho para a recuperação do Rio”, defende Bittencourt, atualmente com 30 anos e uma carteira de grandes empresas como clientes.
Como Pedro, especialistas entrevistados pelo GLOBO apontam a inovação como aposta para o Rio gerar diferencial competitivo, contribuindo para sair da crise financeira. Celeiro de centros de pesquisa e desenvolvimento de universidades, como a Coppe; de empresas, como a Petrobras; e de entidades, como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Estado reúne talentos e laboratórios que podem servir de suporte para investir em novos caminhos, como a economia criativa.
Motivos não faltam para seguir nessa direção. No Índice de Cidades Empreendedoras, divulgado em novembro pela Endeavor, a capital do Estado subiu duas posições e assumiu a liderança no item Inovação, passando à frente de São José dos Campos, graças à contratos de concessão e investimentos do BNDES e da Financiadora de Estudos e Projetos. Outro ponto a favor: a economia criativa, movida pela inovação e pelo capital intelectual, tem no Rio a maior concentração de empreendimentos de bens e serviços do país, gerando uma riqueza de R$ 24 bilhões, segundo “Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil”, realizado pelo Sistema Firjan.
A Prefeitura promete ações no Porto Maravilha para valorizar essa vocação da cidade. O subsecretário municipal de Inovação, Leandro Soares, citou, como exemplo, a criação do Porto 21, uma área de 1,7 milhão de m² dos 5 milhões de m² do Porto Maravilha. A proposta, segundo Soares, é reunir academia, empreendedores, governo, incubadoras, aceleradoras e centros de pesquisa para criar um hub de inovação e criatividade e gerar novos negócios.
Para viabilizar o Porto 21, dois novos projetos de lei estão sendo analisados pela Procuradoria do Município para serem apresentados, até janeiro, à Câmara dos Vereadores. O primeiro busca atrair novas empresas para a região, com a redução da alíquota de Imposto Sobre Serviço de 5% para 2% em inovação, tecnologia e indústria criativa, a mesma alíquota cobrada por Florianópolis.
— Acreditamos que isso irá adensar a região — aposta o subsecretário.
O outro projeto de lei pretende criar o Sistema Municipal de Inovação para simplificar e modernizar o ambiente regulatório da capital — o Rio tem o pior desempenho entre as 32 cidades analisadas pela Endeavor. A prefeitura garante que irá aumentar a rede de conexão entre as empresas, com ampliação da rede de fibra ótica em um “cinturão” que inclui o Porto 21 , o Centro Tecnológico da UFRJ e o Teleporto.
— Uma vez testada e com resultado pretendemos ampliar essas medidas para outros pontos da cidade — diz Soares.
Para Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) do Rio, além de explorar vocações, o Rio precisa ter foco:
— Não adianta apostar em vários setores. Que tipo de inovação vai investir para ser referência? A partir daí, tem que fomentar, definir metas e atrair empresas âncoras para criar um ecossistema.
Existem outros pontos preocupantes. Dos R$ 4,5 bilhões destinados para Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), apenas R$ 600 milhões foram liberados este ano — o restante está contingenciado, pelo Governo Federal, para tentar cumprir o ajuste fiscal.
— É terrível. Vamos no sentido contrário do mundo — alerta Renato Jevoux, analista da Finep, que planeja editais, com outros parceiros, para economia criativa do Rio.
Juliano Seabra, diretor da Endeavor, aponta a violência como um complicador para novos investimentos no Rio:
— O Rio avançou muito em mobilidade. Precisa levar esse legado para outros setores.
Gabriel Pinto, gerente de Indústria Criativa do Sistema Firjan, acredita que, apesar dos desafios, o Estado do Rio tem potencial inclusive para buscar novos mercados, como alternativa à crise brasileira:
— As exportações são um caminho. Temos que pensar globalmente e não só local.
Para o diretor de Marketing e Produtos da Fecomércio, José Luiz Trinta, setores da moda, design, audiovisual, games e arquitetura são os que devem ter melhor desempenho com a economia criativa no estado:
— Outras cidades no mundo apostaram nisso e estão se reerguendo, como Detroit, nos Estados Unidos.
Além da tecnologia, especialistas apostam na força da arte e da cultura tanto na recuperação da economia quanto no impacto social. A arquiteta e artista Laura Taves utiliza, no Atelier Azulejaria, a pintura em azulejos para despertar saberes dos jovens e reconectá-los com a cidade. Desde 2005, trabalha em oficinas com alunos do Complexo da Maré, em parceria com a ONG Redes da Maré. O Atelier também criou, com os alunos, o novo painel da escola Tasso da Silveira, em Realengo, marcada pelos 12 jovens assassinados, em 2011.
— O aspecto educativo é o que mais me toca — conta Laura, que é diretora de Relações Comunitárias do Museu do Amanhã: — No Museu, costumamos dizer que o amanhã é feito hoje e o hoje é o lugar de ação.

