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PIB tem maior queda da História, mas analistas veem sinais de fim da recessão

RIO e SÃO PAULO - O Brasil já começou a superar a recessão mais intensa de sua História, porém o processo de retomada será lento e sujeito a riscos. Segundo dados divulgados ontem pelo IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) recuou 3,6% no ano passado. E completou um ciclo de 11 trimestres de queda, período no qual acumulou uma retração de 9% — a recessão mais profunda, duradoura e abrangente, de acordo com dados do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace/FGV). Analistas afirmam, porém, que o pior já passou e preveem um resultado positivo para o PIB já no primeiro trimestre deste ano. A recuperação, no entanto, será tímida. O desemprego em patamar recorde, o elevado endividamento de famílias, empresas e governo, e as incertezas em relação às reformas em tramitação no Congresso são entraves no caminho.

A recessão dos últimos dois anos tem contornos históricos em vários tipos de comparação. Segundo o IBGE, a economia recuou 7,2% no acumulado entre 2015 e 2016, retornando ao patamar de 2010. O resultado é o pior da série histórica do órgão, iniciada em 1947. E foi a primeira vez que o país registrou duas retrações anuais seguidas. Indo mais longe, a atual crise é pior até mesmo que a dos anos 1930, quando o Brasil e o mundo se ressentiram da Grande Depressão americana.

Os dados divulgados ontem pelo IBGE também mostram que o PIB per capita recuou 9,1% no acumulado entre 2014 e 2016 — retornando ao patamar de 2008, segundo estimativa da economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Esse indicador é importante porque dá a dimensão da economia do dia a dia, ao dividir tudo que é produzido no país pelo total da população.

— É como dizer que o bolo encolheu, e a quantidade de pessoas para comerem o bolo aumentou — resume Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE.

A recessão em 2016 foi tão grande que deixou para 2017 uma “herança” negativa de 1,1%. Ou seja, por efeitos estatísticos, se a produção da economia brasileira não avançar nada este ano, o PIB ficará em -1,1%.

E o resultado de 2016 só não foi pior porque o setor externo, com queda nas importações e aumento das exportações, ajudou a melhorar os números do PIB. Sem isso, considerando apenas a demanda interna, o tombo da economia seria de 5,3%. Economistas afirmam que o desemprego, que deve chegar à casa dos 13% neste ano, é o principal obstáculo para reverter esse quadro. Sem trabalho e com menos renda, o brasileiro vai demorar a voltar às compras.

Rafael Bacciotti, economista da consultoria Tendências, é um dos que projetam alta do PIB (0,7%, com viés de baixa) já no primeiro trimestre deste ano, mas destaca que o processo será lento. Nos últimos três meses de 2016, o PIB encolheu 0,9% frente ao trimestre anterior, um resultado pior que o esperado por analistas.

— A saída desse ciclo vai ser mais demorada, porque a reação da demanda será lenta, pois é limitada pelo nível de endividamento de todos os agentes econômicos: governo, famílias e empresas. E a taxa de desemprego média do ano deve ficar em 13,1%. Toda a receita das pessoas será alocada para pagamento de dívidas, não para consumo — destaca Bacciotti.

A recuperação do consumo está fortemente ligada à reativação do setor de serviços, que representa 73,3% da economia brasileira. No ano passado, o segmento recuou 2,7%, repetindo o resultado de 2015 — o pior da série histórica, iniciada em 2016. Para Silvia Matos, da FGV, o setor é o que mais preocupa.

— O que dificulta um crescimento muito forte neste início de ano é o setor de serviços, que terminou mal. E tudo que temos de informação até agora também é ruim. Esse setor está sofrendo muito com a demanda das empresas e das famílias — avalia.

Apesar da ressalva, a economista afirma ter um “otimismo cauteloso” em relação a 2017. Ela espera alta de 0,3% no PIB no primeiro trimestre e crescimento de 1% no ano:

— Não sabemos qual será esse ritmo de saída, mas a boa notícia é que parece que, finalmente, a recessão está acabando.

Com consumo e serviços comprometidos, a expectativa é que a recuperação parta da indústria, setor que começou a sentir os efeitos da crise primeiro. Certo mesmo, por enquanto, é o desempenho da agropecuária, que amargou queda de 6,6% em 2016, mas será beneficiada por uma supersafra neste ano.

Rodolfo Margato, economista do Santander, observa que a agropecuária deve puxar a retomada no primeiro trimestre (a expectativa do banco é que a economia cresça 0,3% até março), mas alerta que a produção industrial já deve apresentar recuperação. O indicador, que será divulgado hoje pelo IBGE, deve apresentar crescimento de 1% em janeiro, segundo estimativa do Santander.

— Estamos melhor do que em 2016, com melhora da confiança dos empresários, com ajuste de estoques. Acreditamos que a formação bruta de capital fixo (FBCF, indicador de investimento) deve crescer 3,5% este ano, depois de uma queda de 10,2% em 2016, com a melhora da percepção de risco do país, a queda dos juros e o andamento do programa de concessões — diz Margato.

Felipe Salles, economista do Itaú Unibanco, também destaca sinais positivos. Para ele, que espera crescimento de 1% neste ano e de 0,3% já no primeiro trimestre, a alta do preço das commodities, as empresas menos alavancadas (com menos dívidas em relação à geração de caixa) e os juros menores são três sinais positivos a serem considerados. Mas Salles alerta para os riscos em relação às reformas fiscais.

— Toda essa melhora que vimos até agora tem uma âncora: o fato de as reformas estarem avançando. A PEC do teto de gastos foi aprovada no fim do ano passado, e isso foi um passo enorme para dar credibilidade e previsibilidade à economia brasileira. Mas ainda falta a reforma da Previdência — afirma o economista.

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