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‘Mulheres têm muito menos voz, menos participação, não têm poder de decisão’, diz Miriam Müller

SÃO PAULO - Financiador de pelo menos 25 projetos com componente de gênero em 14 estados brasileiros, o Banco Mundial elaborou um estudo recente que mostra a situação da mulher no Brasil. O trabalho “Um apanhado da questão de gênero no Brasil: instituições, consequências e um olhar mais apurado sobre as diferenças de raça e região”, em tradução livre, teve a cientista social alemã Miriam Müller, 35 anos, como uma de suas autoras. O estudo mostra que, apesar de avanços importantes em áreas como educação, saúde e violência, a mulher brasileira ainda está muito afastada do mercado de trabalho e da tomada de decisões políticas e sociais. Leia abaixo a conversa com Miriam, dada por telefone, de Washington, onde funciona a sede do banco.

MIRIAM: Que o panorama sobre a questão de gênero no Brasil é muito ambíguo. O país fez progressos imensos na área nos últimos anos, muitas vezes sem paralelo com outros locais do mundo. Criou políticas públicas e instituições para promover maior igualdade. É reconhecido internacionalmente por conta da Lei Maria da Penha. Quando falamos em educação da mulher, as brasileiras ficam mais tempo na escola, completam mais a educação secundária e entram mais na universidade do que os homens hoje em dia. Na saúde, o progresso foi imenso: a mortalidade materna, por exemplo, caiu muito. Mas infelizmente a coisa não acaba aí. Essa grande história de sucesso tem vários poréns, e o Brasil não pode negligenciar a questão de gênero se quiser progredir.

A melhor educação que elas vêm recebendo de 20, 30 anos para cá não se traduziu em progresso em termos trabalhistas. A participação feminina no mercado de trabalho aumentou míseros 1% nos últimos 10 anos; é pouquíssimo, o progresso está estagnado. Além disso, continuam ganhando muito menos do que os homens e trabalham em áreas segregadas, que não estão diretamente ligadas ao crescimento da economia. E trabalham mais: 41,5 horas por semana, contra 37,3 dos homens. Trabalham quatro vezes mais em casa, e o trabalho doméstico não é remunerado. Ou seja, a mulher tem quatro vezes menos tempo para ganhar dinheiro fora de casa. Isso é a questão financeira em si; a outra área é que elas também têm muito menos voz, muito menos participação, não têm poder de decisão.

Tem a questão econômica em si, com mais inserção no mercado de trabalho, mas tem a questão política e cultural. A brasileira tem muito o que conquistar no quesito de pautar as discussões e se fazer ouvir. Menos de 10% do Congresso são formados por mulheres, número muito menor do que em muitos países da América Latina, infinitamente menor do que em países desenvolvidos. A violência contra a mulher também é preocupante (. Isso tudo impede uma maior participação feminina.

O Brasil é imenso e tem muitas realidades, e esse é um de nossos objetivos: trabalhar para que as questões de raça e localização sejam levadas em conta na hora de se elaborar projetos. Se você é uma mulher negra e mora em certas regiões do Brasil, tem, de maneira chocante, bem menos oportunidades. Projetos não devem pensar somente na mulher como mulher, e sim na sua cor, em onde ela vive. Uma mulher negra com educação secundária no Brasil ganha em média R$ 15,6 por hora; enquanto um homem branco com o mesmo nível de educação ganha R$ 32,7 por hora. O que estamos falando é: a dimensão do problema vai além do gênero, tem a ver com raça e localização.

Um terço das brasileiras de 18 a 35 anos não trabalha nem estuda. Nas áreas rurais, é uma em cada duas mulheres fora de qualquer instituição de ensino, de qualquer emprego. O caso é tão grave que em breve divulgaremos um estudo só sobre o tema. Num primeiro momento vimos que a questão da maternidade é realmente um impedimento para a mulher trabalhar. Mas vai além disso, porque muitas das “Nem-nems” não têm filho. Tem a ver com as oportunidades que se apresentam para as mulheres mesmo antes dos 18 anos e com percepções sobre seu papel social. Essas mulheres não têm exemplos de outras a seguir, não têm aspirações, referências, nada lhes é apresentado. Há que se atacar a raiz de por que, em muitos casos, acaba se optando por uma gravidez precoce; tem a ver com essa falta de capacidade de vislumbrar um futuro.

Esses estudos não visam a propor projetos, mas sim a documentar as diferentes realidades brasileiras para que se escolha estados mais vulneráveis em cada área e se crie esforços por área. Um projeto de desenvolvimento da agricultura deve olhar a mulher. O acesso ao crédito não deve pensar que o principal beneficiário seja um homem branco de 35 anos. Deve se adequar financiamentos às realidades.

Isso tem a ver com questões culturais e de gênero, que têm, na verdade, mesma raiz de tudo isso que falamos aqui. Esperamos que haja um efeito cascata. Dar mais participação às mulheres não é só importante por ser um direito, é importante porque é um fundamental para o desenvolvimento dos países. Entre 2004 e 2014, a renda das mulheres contribuiu em 15% na redução da pobreza. Conter o empoderamento e a capacidade da mulher de ganhar dinheiro significa menos progresso contra a pobreza.

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