Por Leika Kihara
TÓQUIO, 21 Jul (Reuters) - A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, prometeu impulsionar os investimentos em setores de crescimento em seu primeiro plano econômico, finalizado nesta terça-feira, uma promessa ofuscada pelo aumento dos rendimentos dos títulos em um reflexo das preocupações de que o governo possa interferir na política monetária.
O governo de Takaichi tem enfrentado dificuldades para dissipar a percepção do mercado de que pode aumentar os gastos e pressionar o Banco do Japão a adiar os aumentos da taxa de juros a fim de conter o custo do financiamento da já enorme dívida do país.
À medida que os rendimentos dos títulos públicos sobem para níveis não vistos em décadas desde junho, o governo foi forçado a ajustar várias vezes a redação do plano em relação à política monetária.
Uma frase em uma versão preliminar que defendia uma política monetária “que estimule a demanda privada” desapareceu à medida que as taxas de longo prazo subiam.
REVISÕES
Depois que uma versão posterior que vinculava a política monetária aos esforços do governo para impulsionar o crescimento abalou os mercados, foram feitas revisões para esclarecer que o banco central define a política “para alcançar aumentos estáveis dos preços”.
O projeto final manteve a redação que instava o Banco do Japão a alinhar sua política com a do governo, mas inseriu uma nota de rodapé referindo-se a uma cláusula da lei que estipula a necessidade de proteger a independência do banco central na definição da política monetária.
“Para alcançar uma economia forte, é muito importante que a política monetária seja conduzida de forma adequada para garantir aumentos estáveis dos preços”, afirma o projeto final, que foi aprovado pelo gabinete nesta terça-feira.
A legislação japonesa garante ao banco central independência em relação à interferência política, mas também exige estreita coordenação com a política econômica do governo.
COMPROMISSOS PARA IMPULSIONAR O INVESTIMENTO
Takaichi é conhecida como defensora da “Abenomics”, uma combinação de grandes gastos fiscais e afrouxamento monetário por meio da forte emissão de títulos adotada pelo ex-primeiro-ministro Shinzo Abe para tirar o Japão da deflação prolongada.
“Sob a administração de Takaichi, o governo tomará a iniciativa e, em conjunto com o setor privado, investirá em áreas estratégicas, pondo assim fim à tendência de subinvestimento que tem atolado o Japão”, afirma o plano.
O Japão buscará trabalhar com o setor privado para canalizar recursos para setores estratégicos, com investimentos públicos e privados combinados projetados para ultrapassar 370 trilhões de ienes (US$2,28 trilhões) até o ano fiscal de 2040, segundo o documento.
Abandonando a linguagem usada em governos anteriores, que prometiam restaurar a saúde fiscal, o plano de Takaichi se comprometeu a equilibrar a necessidade de impulsionar o crescimento e alcançar a “sustentabilidade fiscal”.
Desde que assumiu o cargo em outubro, Takaichi prometeu aumentar os gastos para revitalizar a economia. Seu governo também sinalizou reservas em relação aos aumentos dos juros pelo Banco do Japão.
O foco em gastos elevados e taxas baixas elevou os rendimentos dos títulos, em meio à preocupação do mercado de que o Japão possa ver suas finanças piorarem e demorar demais para lidar com os riscos de inflação.
Depois de atingir a máxima em três décadas de 2,9% em 9 de julho, o rendimento do título de referência do governo japonês (JGB) de 10 anos recuou um pouco e estava em 2,73% nesta terça-feira.
“Orientamos a política econômica e fiscal levando em conta a sustentabilidade fiscal e a necessidade de manter a confiança do mercado. Continuaremos a fazê-lo com base nesse plano”, afirmou Takaichi nesta terça-feira, em uma reunião de um painel que debatia o plano.
Mas alguns analistas afirmam que meros ajustes na redação do texto pouco contribuirão para aliviar as preocupações do mercado em relação às políticas de Takaichi.
“O governo quer que o Banco do Japão mantenha os juros baixos para poder emitir mais dívida”, disse o ex-membro da diretoria do banco central Seiji Adachi. “Essa não é uma boa mensagem a se enviar aos mercados.”
O Banco do Japão encerrou um programa agressivo de estímulo em 2024 e elevou a taxa de juros várias vezes, inclusive em junho. Ele sinalizou que está pronto para continuar aumentando sua taxa básica, que, em 1%, ainda é baixa em comparação com outras economias avançadas.
(Reportagem adicional de Kentaro Sugiyama)




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