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Meirelles diz a investidores estrangeiros que Brasil está preparado para aumento de juros americanos

DAVOS - O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, assegurou a investidores estrangeiros, nesta quinta-feira, que a economia brasileira está preparada para enfrentar os impactos provocados por um possível aumento dos juros americanos no mercado internacional. Em conversas durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, o ministro destacou que as contas externas estão equilibradas e que o volume de Investimento Estrangeiro Direto (IED) está bem acima do déficit em conta corrente, o que significa que o país tem condições se financiar.

Segundo Meirelles, existe uma expectativa de que os Estados Unidos elevem os juros devido a seu atual cenário econômico de aquecimento da atividade e pleno emprego. A equipe econômica, disse o ministro, já trabalha com essa perspectiva. Mesmo assim, a projeção para o IED em 2018 é de US$ 80 bilhões, número superior aos US$ 75 bilhões de 2017.

Esse volume de investimentos, ressaltou o ministro, é suficiente para financiar um déficit em conta corrente maior. Como a economia brasileira também está aquecida, as importações devem crescer este ano, elevando o rombo das contas externas de US$ 9 bilhões para US$ 18 bilhões.

- Tudo isso leva a uma área externa bastante equilibrada e estável. É uma situação boa para enfrentar uma possível e razoável subida de juros nos Estados Unidos e a mudança das condições econômicas internacionais - disse Meirelles, acrescentando:

- O importante para nós é fazer o dever de casa. O país está, de fato, equilibrado. Tanto nas contas externas quanto no risco país. O CDS está bem confortável, bem sólido. Ele indica confiança e solidez.

Ele também disse a seus interlocutores que, apesar de a reforma da Previdência ainda não ter sido aprovada, o governo vai conseguir fechar as contas em 2018. Segundo o ministro, a equipe econômica estima que mesmo que não consiga derrubar a liminar do Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu o adiamento do reajuste dos servidores públicos e aprovar a reoneração da folha no Congresso no início deste ano, a regra do teto de gastos vai ser cumprida. Isso porque a perda de economia com essas duas medidas, de R$ 8 bilhões, será compensada pelo reajuste do salário-mínimo abaixo do INPC.

- A questão fiscal em 2018 está equacionada - disse ele, destacando que o governo tem condições de cumprir este ano não apenas o teto, mas também a regra de ouro (pela qual o governo não pode se endividar para pagar despesas correntes) e a meta fiscal, de déficit primário de R$ 159 bilhões.

- Temos o pré-pagamento do BNDES (devolução de R$ 130 bilhões do banco ao Tesouro Nacional) que deve equacionar a situação da regra de ouro. E a meta fiscal está garantida pelo aumento da arrecadação com o crescimento da economia.

O ministro disse aos investidores que o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 3% em 2018. Para 2017, a estimativa é de que houve uma alta de 1%, uma vez que o número oficial ainda não divulgado pelo IBGE.

Para 2019, admitiu Meirelles, o quadro fiscal é mais desafiador, uma vez que o teto de gastos fica ainda mais restritivo, o que mostra a importância da reforma da Previdência:

- Mais à frente, o teto passa a ser mais relevante. Em 2017, o déficit da Previdência correspondeu a 57% do Orçamento. Isso vai aumentar nos próximos anos.

O governo não sabe ainda como vai conseguir cumprir a regra de ouro no ano que vem, uma vez que o BNDES não terá mais devoluções a fazer ao Tesouro. Questionado sobre a dificuldade de assegurar a regra de ouro em 2019, o ministro desconversou:

- Essa é uma discussão para o próximo presidente da República - rebateu ele.

O ministro também comentou o julgamento do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4a Região sobre o recurso do ex-presidente Lula. A decisão pode impedir que Lula concorra à Presidência da República. Perguntado sobre o desfecho do julgamento, Meirelles respondeu:

- A Justiça é soberana e decisão judicial se obedece.

E sobre a decisão do ex-presidente de se candidatar mesmo que perca o recurso judicial, o ministro afirmou:

- O que ele (Lula) vai fazer é decisão dele e do PT.

Mesmo assim, Meirelles afirmou que a candidatura do ex-presidente seria positiva porque daria aos eleitores a possibilidade de fazer um julgamento nas urnas. Ele disse que, até 2002, Lula tinha propostas de política econômica radicais, mas destacou que a estratégia mudou depois da carta ao povo brasileiro (documento no qual o PT se comprometeu com uma agenda econômica mais conservadora), o que tornou o primeiro mandato do ex-presidente bem-sucedido. No entanto, afirmou Meirelles, a agenda defendida pelo PT hoje é bem diferente:

- O que defende hoje o PT é diferente daquilo (carta ao povo brasileiro) e o que fez a Dilma é muito diferente. Houve uma mudança de orientação fiscal diferente, bastante expansiva. Isso é o que os mercados vão estar olhando daqui para frente. A minha expectativa é que ganhe um candidato que eu chamo de reformista.

Mais cedo, o ministro contou que os investidores lhe perguntam com frequência sobre sua possível candidatura à presidência:

- Isso aí é recorrente, é sempre.

E relatou que dá a mesma resposta:

- Eu digo que estou sempre focado na economia.

O ministro passará a semana em Davos, onde acompanhará a agenda do presidente Michel Temer, e terá mais reuniões bilaterais. Uma delas será com o secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, na qual o ministro pretende defender o ingresso do Brasil na OCDE. O governo dos Estados Unidos têm evitado levar à frente candidaturas de países que querem entrar na Organização, da qual é o principal financiador.

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