WASHINGTON — Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), publicou na manhã desta quarta-feira um texto sobre a situação econômica do mundo uma década após a quebra do Lehman Brothers, marco da grande recessão global de 2008. Em sua opinião, o mundo recuperou e está mais seguro, mas não fez o suficiente. Ela afirma que a forma como foi feito o socorro, com impunidade aos banqueiros e sofrimento da população, está por trás da forte rejeição à globalização.
“Onde estamos no décimo aniversário do colapso do Lehman? O ponto de partida é o seguinte: nós percorremos um longo caminho, mas não fomos longe o suficiente. O sistema é mais seguro, mas não seguro o suficiente. O crescimento se recuperou, mas não é compartilhado o suficiente”.
E, na sua opinião, com esta recuperação incompleta, o mundo mudou e está mais complexo. Para Lagarde, há agora um enfraquecido compromisso com a cooperação internacional:
“Ironicamente, o próprio tipo de cooperação que impediu que a crise se tornasse outra Grande Depressão”.
Para a diretora-gerente do fundo, ao ter que enfrentar reversões na regulamentação financeira, desigualdade excessiva e aumento do protecionismo, o mundo ainda segue com a recuperação da crise em aberto.
“Nesse sentido, o verdadeiro legado de a crise não pode ser avaliada adequadamente depois de dez anos, porque ele ainda está sendo escrito”, avalia. “As consequências da pesada crise econômica, com seus custos suportados por pessoas comuns, que se somou à raiva em ver os bancos socorridos e banqueiros gozando de impunidade — em uma época em que os salários reais continuaram a estagnar — está entre os fatores-chave para explicar a reação contra a globalização, particularmente econômica, e a erosão da confiança no governo e outras instituições”, escreveu Lagarde.
A diretora-gerente do FMI afirma que a forte desregulamentação financeira e a interconexão de bancos fez com que a crise originária no contratos imobiliários americanos e contaminassem toda a economia global. Lagarde afirma que, olhando em perspectiva, é fácil ver os caminhos para a crise, mas que, no momento, quase ninguém se ateve a estes pontos. E que se o mundo falhou em prevenir os problemas, a reação à crise foi “exemplar”:
“Se as políticas a esses riscos anteriores à crise foram inadequadas, eu diria que a resposta política à crise foi impressionante. Os governos das principais economias tiveram políticas coordenadas pelo G20 (Grupo das 20 maiores economias do mundo) em escala global”, escreveu a diretora, lembrando que conseguiu-se minimizar a chegada dos problemas à economia real com medidas que garantiram suporte de capital, garantias de dívida e compras de ativos, com bancos centrais reduzindo drasticamente as taxas de juros e governos sustentando a demanda com grandes estímulos fiscais. “O FMI também desempenhou o seu papel. Mobilizamos os países membros para expandir nossas finanças e, como resultado, foram capazes de comprometer quase US$ 500 bilhões aos países atingidos pela crise. Também injetamos inéditos US$ 250 bilhões de liquidez global no sistema.”
Lagarde afirma que o FMI modernizou suas práticas, permitindo empréstimos em uma velocidade maior e mais flexível, inclusive com modalidades com juro zero. E, para ela, o FMI ajudou a “repensar seriamente” a macroeconomia. Apesar desta resposta, ela afirma que a recuperação foi incompleta.
“Tudo isso é bom, mas ainda não é bom o suficiente. Muitos bancos, especialmente na Europa, permanecem fracos”, disse ela, que defende novos aumentos de capitais dos bancos.
Lagarde acrescentou que a visão de que há instituições “grandes demais para quebrar” ainda é um problema, pois gera complexidade ao sistema financeiro internacional, que vê a “inovação financeira” e “atividades obscuras” se movendo em direção ao “setor bancário paralelo”.
No documento, a diretora do FMI defendeu reformas nas instituições financeiras, no que chamou de necessidade de ocorrer sob “liderança feminina”, pois maior diversidade aguça o pensamento e porque há evidências que apontam que líderes mulheres são mais prudentes.
“Mas talvez o mais preocupante de tudo é que os formuladores de políticas estão enfrentando uma pressão do setor para reverter os regulamentos pós-crise”, disse ela, que afirma que a crise não gerou uma mudança de comportamento.
“Há uma outra área importante que não mudou muito — a área de cultura, de valores e da ética. Como eu já disse antes, o setor financeiro ainda coloca lucro agora em detrimento da prudência de longo prazo, visão de curto prazo se sobrepõe à sustentabilidade. Basta pensar nos muitos escândalos financeiros desde (a quebra do) Lehman (Brothers). A ética não é importante apenas por si mesma, mas porque os lapsos éticos têm claro consequências econômicas”, concluiu Christine Lagarde.



