SÃO PAULO - O ex-presidente da Eletrobras, José Luiz Alqueres, disse nesta terça-feira que a privatização da estatal “foi um anúncio corajoso”, mas considerou exageradamente otimista o prazo de seis meses estimado pelo ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, para a conclusão do processo. Durante participação em um fórum do setor, em São Paulo, Alqueres lembrou que antes de uma venda desse porte, entre outros aspectos, é preciso identificar potenciais compradores, trabalho que leva tempo para ser elaborado.
— Você precisa apresentar as regras do jogo muito bem, fazer uma equipe e fazer o chamado , sair pelo mundo mostrando essa história. E eu sei porque eu já coordenei grupos que compraram grandes empresas, feito a Light, feito a Embraer. Seis meses meses é um prazo curto para um comprador que sabe as regras, conseguir aprovação do seu conselho, pra gastar alguma coisa acima de R$ 4 bilhões ou R$ 5 bilhões. Como a gente tá falando de importâncias significativamente maiores (cerca de R$ 20 bilhões), eu acho que é muito otimismo mesmo - afirmou Alqueres.
Andre Dorf, presidente da CPFL Energia, comemorou a notícia que “surpreendeu positivamente o mercado”, mas ressaltou que ainda é cedo para comentar qualquer tipo de modelagem considerada para o negócio.
— Acho que a Petrobras tem ganhado uma evidência maior (por causa dos escândalos de corrupção), mas a Eletrobras não é menos desafiadora, então, é uma decisão corajosa (a de privatizar). Ela tem o cunho fiscal de ajudar nas contas públicas, mas também de melhorar a gestão da empresa e os padrões de governança. Muitos desafios ainda virão até que isso se materialize, mas é um primeiro passo muito importante para o setor. Ainda é cedo pra gente falar porque o modelo não está totalmente divulgado e a gente não conhece os detalhes — concluiu Dorf.
Para o ex-presidente da Eletrobras, apesar de os chineses serem apontados como principais interessados pelo negócio, os asiáticos devem encontrar concorrência forte na Europa e nos Estados Unidos, que, por outro lado, ainda resistem a alguns negócios do setor no Brasil por causa da fragilidade do sistema regulatório.
— O mundo inteiro vive uma situação de excesso de liquidez e falta de projetos de investimento que ofereçam retornos atrativos. Dos países da comunidade europeia, seis hoje têm juros negativos. Você compra um título por mais que você vai receber dentro de algum tempo. Isso porque eles (compradores) estão apostando num futuro de deflação. Aqui (no Brasil) você vai ter futura demanda. Fora a desigualdade de renda, que você supõe corrigir, eu acho o seguinte: essa liquidez internacional, não se resume à China — ponderou José Luiz Alqueres.
Segundo o ex-presidente da Eletrobras, o comunicado do ministério de Minas e Energia em que a pasta projeta “implementar os requisitos de governança corporativa” ao decidir pela privatização da empresa, acompanha uma tendência mundial e aponta para um horizonte onde a transparência nos negócios é um bem fundamental.
Na opinião de Eduardo Sattamini, presidente da Engie Brasil Energia, o movimento é uma “democratização, mais do que uma privatização”, que permite ao governo aumentar o seu capital, diluir o montante e flexibilidade para que a empresa tome decisões como gente privado. Apesar disso, o executivo tem dúvidas sobre o tipo de investimento que será feito e teme que a modelagem do negócio não privilegie, por exemplo, o crescimento da produção e da oferta de energia.
— Acho difícil, no entanto, que isso venha a atrair investidores estratégicos. (vai atrair) Muito mais investidores financeiros, de controle diluído, tem muito mais cara de uma privatização para agentes financeiros — disse Sattamini.

