Para ela, um crescimento maior da economia neste ano será garantido pela queda recente dos juros, mas sem a aprovação de reformas que ajudem na retomada do investimento, poderá haver nova perda de fôlego do PIB (Produto Interno Bruto) em 2021.
PERGUNTA - O movimento da Bolsa e do dólar nesta quarta é algo que terminou ou pode continuar nos próximos dias?
ZEINA LATIF - O movimento foi forte, porque acumulou todo o ajuste que já estava vindo do exterior, mas, lamentavelmente, não dá para dizer que o pior já passou. Pode ser que a gente tenha um respiro, mas não ousaria dizer que o ajuste se concluiu. Ainda tem muita incerteza em relação ao cenário lá fora. Mesmo com os números na China indicando que o ritmo de pessoas infectadas e de mortos está perdendo força, o fato é que está espalhando para o mundo. Não dá para descartar uma escalada das más notícias sobre o coronavírus.
P. - Há outros fatores afetando o mercado no Brasil, além da questão do vírus?
ZL - Considerando que o país está mais protegido da contaminação, por ser um país tropical, não estar tão integrado no fluxo global, a gente imaginaria que seria menos impactado. E não é o que está acontecendo. É inevitável a conclusão de que fatores domésticos estão aumentando esse efeito.
A gente já vinha tendo um certo mal-estar nos mercados, com os números mais frágeis da economia, questionamentos em relação à agenda econômica, desgaste do ministro Paulo Guedes [Economia], ruídos causados pelo presidente e seu entorno, ataques ao Congresso. Tudo isso é má notícia para a agenda econômica e para as perspectivas de crescimento. Os preços de ativos podem estar sendo impactados também.
P. - A instabilidade política está no preço dos ativos brasileiros?
ZL - É nítido que precisa de um freio de arrumação no governo. A agenda econômica está comprometida. Fica a sensação de que a gente vai ter um ano perdido em termos de avanço de reformas, e nem é só uma questão de problema de coordenação no Ministério da Economia. Está faltando definição de uma agenda de governo.
P. - Esse pode se tornar um ano perdido também para a recuperação do crescimento?
ZL - Uma parte do crescimento para este ano está contratada, que é o impacto do corte de juros se materializando no mercado de crédito. Esse é o principal canal para a gente ter uma aceleração do crescimento do PIB em relação ao ano passado. Pode ser que seja tímida, pois esse choque externo vai cobrar seu preço. Não tem como evitar.
A pauta da agenda de reformas vai ter impacto mais adiante. Se a gente tiver um ano em que não avançar em relação ao que é importante, corre o risco de, em 2021, ser ainda mais fraco o crescimento. Precisa criar condições para que tenha de fato um aumento do investimento neste ano, para que a gente possa colher frutos adiante.
P. - O ano de 2021 também estaria prejudicado?
ZL - Se a gente tem um quadro tumultuado neste ano, com agenda de reformas, com trapalhadas do governo, em que você vê o consumo aumentar, mas não a taxa de investimento, porque tem um ambiente de incerteza, indefinição de agenda econômica, não ter investimento. Pode ter um crescimento em 2020 beneficiado pelos juros, mas correndo o risco de ficar muito circunscrito ao consumo, sem avançar no investimento. Isso vai cobrar um preço adiante.
P. - A alta do dólar pode desorganizar a economia? As intervenções do BC são suficientes?
ZL - O efeito do câmbio, em um primeiro momento, é de contrair a atividade econômica. Um dos canais pelos quais a crise do coronavírus impacta a economia brasileira é o câmbio. São os fluxos comerciais, financeiros, o humor do investidor e o câmbio mesmo, que encarece insumos e bens de capital. Faz sentido o Banco Central conter ao máximo a volatilidade, mas ele não tem instrumentos para evitar um movimento que é global, de fortalecimento da moeda americana.
P. - Como o Brasil pode se diferenciar de outros países neste momento?
ZL - O que precisa é o governo, de forma geral, não só o Ministério da Economia, mostrar qual a agenda. É o melhor antídoto para proteger o país da volatilidade. Seria o grande antídoto para o Brasil evitar o contágio econômico dessa crise global, que talvez tenha mais por vir.
Precisa ter clareza e foco nessa agenda. Não se trata de mandar mais uma proposta para o Congresso. É claro que todo mundo quer uma reforma administrativa, mas não adianta mandar agora, já tem vários temas ali. A prioridade agora é a PEC Emergencial, para destravar o Orçamento, garantir o cumprimento da regra do teto de gastos. Não é mandar mais uma. Está congestionando o Congresso, criando ruído.
