O dólar exibiu forte alta no mercado local no primeiro pregão de julho e voltou a fechar acima do nível de R$ 5,20. Apesar de fala mais amena do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, em fórum de política monetária em Portugal, a moeda americana voltou a se fortalecer globalmente. O real amargou o pior desempenho entre as divisas mais líquidas, abalado pelo anúncio de sanções americanas a cidadãos e empresas brasileiras por ligação com o PCC, classificado pelos EUA, desde o início de junho, como organização terrorista.
Analistas ponderam que a confirmação de favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pesquisa Atlas/Bloomberg contribuiu para o tombo do real, ao diminuir a perspectiva de um ajuste fiscal a partir de 2027. Divulgado pela manhã, antes da abertura dos negócios, o levantamento mostrou Lula com 48,8% das intenções de voto em eventual segundo turno, contra 42,3% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal aposta da oposição para reconquistar o Planalto.
Em alta desde o início da sessão, o dólar atingiu o pico do dia no início da tarde, quando registrou máxima de R$ 5,2167, na esteira do anúncio das sanções americanas. Após rondar os R$ 5,20 no restante do pregão, encerrou em alta de 0,92%, a R$ 5,2103 - maior valor de fechamento desde 30 de março (R$ 5,2478). No ano, as perdas são de 5,08%.
Para o economista-chefe da CVPAR, Marcelo Fonseca, o anúncio das sanções pode ter provocado certo ruído, mas não constitui fator decisivo para o tombo do real. Ele pondera que a moeda brasileira já apresentava desempenho inferior ao dos pares nos últimos meses, com 'dissipação do otimismo com o Brasil", sobretudo em razão da piora fiscal.
"Vejo espaço para o real depreciar mais. Temos uma deterioração da política fiscal, com expansão espantosa dos gastos, e a mudança das expectativas para a eleição, com as pesquisas mostrando quadro desfavorável para a direita, que poderia levar adiante uma agenda de reformas e ajuste fiscal", afirma Fonseca. "O BC estender o ciclo de calibração da Selic com a inflação acelerando e as expectativas desancoradas também é ruim para o real."
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY subia cerca de 0,20% por volta das 17h, na casa dos 101,400 pontos, após máxima aos 101,595 pontos, sobretudo em razão do enfraquecimento do euro, na esteira de leitura aquém das expectativas da inflação ao consumidor na zona do euro.
De outro lado, o relatório ADP mostrou que o setor privado dos EUA criou 98 mil vagas de emprego em junho, acima das estimativas dos analistas, de 93 mil. Na terça, o relatório Jolts já havia revelado geração de empregos mais forte do que as expectativas em maio. Esses dados esquentaram as expectativas em torno da divulgação amanhã, 2, do relatório de emprego (payroll) dos EUA em junho, que pode mexer com as apostas sobre uma alta de juros ainda neste ano.
"O payroll amanhã será peça fundamental para determinar os próximos passos do Fed e ditar o humor dos mercados. Um resultado mais forte vai mostrar que a economia está reacelerando. Será um problema para o Fed", afirma Fonseca, da CVPAR, para quem Kevin Warsh, embora tenha reforçado em sua primeira entrevista à frente do BC americano o comprometimento com a estabilidade de preços, vai procurar "postergar qualquer decisão de subir os juros", sobretudo em um ambiente de expectativas ainda controladas e "recuo da inflação cheia com a queda recente do petróleo".
Pela manhã, em Sintra, Warsh reiterou que não vai prover forward guidance, mas pontuou que houve uma diminuição das expectativas e dos riscos inflacionários nas últimas semanas. Ao avaliar os efeitos do boom da Inteligência Artificial, o chairman disse que uma expansão da oferta pode ter "implicações enormes" para a condução da política monetária.
Para os economistas do Goldman Sachs, estratégias baseadas na captura de ganhos com carry trade podem continuar a apresentar "retorno total" positivo mesmo se houver uma "reprecificação dos próximos passos" do Fed, com a condição de que o ambiente global se mantenha favorável a ativos de risco.
"Na América Latina, a sensibilidade do peso mexicano a dinâmicas cíclicas específicas dos EUA o torna, em nossa visão, uma posição comprada atraente", afirma o Goldman. "Por outro lado, o cenário se tornou menos favorável ao real, devido ao aumento do ruído político e a uma comunicação menos clara do Banco Central."




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