O dólar exibiu alta firme frente ao real nesta quinta-feira, 16, e flertou com fechamento na casa de R$ 5,10. A aversão ao risco no exterior, em um quadro de desconfiança com o setor de inteligência artificial (IA) e de incertezas em torno do desenrolar da guerra no Oriente Médio, levou à valorização global da moeda americana.
Ao ambiente externo desfavorável a divisas emergentes somou-se o desconforto com a confirmação da imposição de tarifas de 25% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Apesar de uma lista ampla de exceções e das dúvidas sobre a dimensão do impacto econômico, o tarifaço abala a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal aposta do mercado para uma mudança do regime fiscal.
O real, contudo, não amargou o pior desempenho entre as moedas emergentes mais líquidas, posto que coube ao florim húngaro, seguido pelo rand sul-africano. A moeda brasileira apresentou perdas similares às de seus pares latino-americanos. O índice DXY - referência do comportamento do dólar frente a seis moedas fortes - subiu cerca de 0,25%, rondando os 100,700 pontos no fim da tarde. Dados de atividade nos EUA, como vendas no varejo, e falas duras de dirigentes do Fed ajudaram a impulsionar a moeda americana.
Com máxima de R$ 5,1139, à tarde, o dólar à vista terminou o dia em alta de 0,40%, cotado a R$ 5,0990. A moeda americana ainda recua 0,18% frente ao real na semana, o que leva a desvalorização acumulada em julho a 1,24%, após avanço de 2,38% no mês passado. No ano, as perdas são de 7,11%.
O gestor de portfólio Marcelo Bacelar, da Azimut Brasil Wealth Management, atribuiu o tropeço do real nesta quinta ao movimento global de risk-off, uma vez que o tarifaço era dado como certo e já estava embutido nos preços dos ativos. "Não vejo relação da alta do câmbio hoje [quinta] com as tarifas, mesmo que haja impacto político. O mercado já está convencido de que o presidente vai ser reeleito", afirma o gestor. "O dólar subiu globalmente com a preocupação com a IA e a guerra."
Pela manhã, pesquisa Genial/Quaest revelou que 51% dos entrevistados concordam com a afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que Flávio pediu aos EUA a imposição do tarifaço sobre produtos brasileiros. À tarde, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o governo "saberá, no momento adequado, como implementar a Lei da Reciprocidade para responder ao tarifaço.
"O tarifaço tem pouca influência no comportamento do câmbio, que continua mais dependente da guerra dos Estados Unidos contra o Irã e das medidas em relação ao Estreito de Ormuz", afirma o economista Fábio Astrauskas, fundador da Siegen Consultoria.
As cotações do petróleo oscilaram em uma faixa estreita, apesar dos atritos no Oriente Médio, com nova onda de ataques dos EUA ao Irã e das ameaças de rebeldes houthis, no Iêmen, de atacar a Arábia Saudita. O Irã também teria pedido ao grupo que esteja preparado para fechar a rota de transporte de petróleo no Mar Vermelho. O contrato do Brent para setembro recuou 0,85%, a US$ 84,23 o barril.
"A alta do dólar hoje [quinta-feira] está associada ao conflito entre EUA e Irã e ao aumento do risco político com o tarifaço, embora, pela ótica do fluxo cambial, o impacto das novas tarifas seja irrelevante", afirma o economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, ressaltando que as taxas não abrangem cerca de 60% das exportações brasileiras aos EUA.
Bacelar, da Azimut, observa que o real se beneficia da elevação recente dos preços do petróleo, por meio da melhora dos termos de troca, além de ser amparado pela atratividade do carry trade. Ele não vê, contudo, perspectiva de um movimento mais forte de apreciação, uma vez que há possibilidade de estreitamento do diferencial de juros, com corte adicional da Selic e o tom mais duro adotado recentemente pelo Federal Reserve.
"Não acho que haja motivo nem para o câmbio sair do controle nem para o real se apreciar muito mais. Podemos ter episódios de risk-off dos investidores estrangeiros, como vimos hoje. A parte política tem feito pouco preço, mas pode ser que piore com o tempo", afirma o gestor.



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