SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar fechou em estabilidade nesta quinta-feira (24), em leve recuo de 0,05%, cotado a R$ 5,519.
O foco do mercado esteve voltado às tratativas tarifárias dos Estados Unidos com alguns de seus principais parceiros comerciais, e a ausência de novidades inspirou cautela entre os operadores.
O impasse entre os norte-americanos e o governo brasileiro também pautou as negociações. Na Bolsa, o efeito foi maior: o Ibovespa caiu 1,15%, a 133.807 pontos, com grande parte das empresas da carteira teórica no negativo.
Os movimentos nesta sessão contrastaram com os da véspera, quando a expectativa por um acordo entre os EUA e a União Europeia inspirou apetite por risco entre os investidores.
Segundo relatos de diplomatas europeus à Reuters, o acordo deve definir uma taxa de 15% sobre os produtos da UE importados para os EUA, evitando uma tarifa mais severa de 30% prevista para ser implementada a partir de 1º de agosto.
O presidente Donald Trump já havia anunciado um acordo com o Japão na terça-feira, que definiu o patamar das tarifas em 15%, e não mais 24%. Indonésia e Filipinas também conseguiram reduzir as taxas impostas sobre suas exportações.
Em relação ao Brasil, porém, o nó parece ser mais difícil de desatar. Com cerca de uma semana para o prazo final do acordo, os canais de negociação formais entre o governo brasileiro e o norte-americano continuam fechados.
O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enviou uma carta pedindo a negociação e não teve resposta -e segue sem previsão de ter. Com este cenário, integrantes da gestão petista começam a duvidar de uma reversão das sobretaxas antes de 1º de agosto.
Trump vinculou as ameaças tarifárias de 50% a questões políticas, como o julgamento que o ex-presidente Jair Bolsonaro enfrenta no âmbito da trama golpista das eleições de 2022. O republicano se referiu às medidas do STF (Supremo Tribunal Federal) como uma "caça às bruxas".
Como os pontos trazidos pelos EUA não são só comerciais, a percepção do mercado é que há menos espaço para discussões. "No momento, é difícil saber a total extensão dessa iniciativa de Trump e qual será a reação do governo brasileiro", disse a economista Paula Magalhães, do banco Bradesco, em relatório.
"O fato de o Brasil ser uma economia relativamente fechada e fundamentos externos que indicam fraqueza do dólar ajudam a explicar por que a taxa de câmbio continua orbitando seus valores de equilíbrio."
Em falas na quarta, Trump disse que as taxas impostas pelo seu governo não ficarão abaixo de 15%. "Teremos uma tarifa direta e simples de algo entre 15% e 50%", disse Trump em uma cúpula de inteligência artificial realizada em Washington. "Temos 50% porque não temos nos dado muito bem com esses países."
O comentário foi mais uma sinalização de que Trump quer impor de forma mais agressiva sobre países que ainda não conseguiram chegar a um acordo com Washington. Nesse sentido, o mercado tem se contentado com a tarifa mínima de 15% -algo curioso para Leonel Mattos, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.
"Seis meses atrás, uma tarifa de 15% contra Japão e União Europeia traria aversão ao risco global. Mas Trump teve sucesso em redefinir as expectativas em relação à política comercial norte-americana, já que as ameaçavas partiram de 20% e foram até 50%. Um acordo de 15% é visto com alívio, porque afasta a probabilidade dos cenários mais pessimistas", diz ele. "Trump foi muito vitorioso nessa redefinição de expectativas."
Para o Brasil, até agora, as tarifas extras já impostas por Trump derrubaram a venda de carne bovina para os americanos em 80% em menos de três meses, e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) calcula que o agronegócio deixará de exportar US$ 5,8 bilhões aos EUA ao ano -uma queda de 48%- caso as sobretaxas de 50% entrem em vigor.
Na segunda, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a pasta está trabalhando com diversos cenários para enfrentar a possível tarifa. Apesar disso, de acordo com ele, a determinação do presidente Lula é que o Brasil não deixe a mesa de negociação.
"Estamos preparando alternativas para apresentar ao presidente, mas punir empresas ou cidadãos americanos não está em discussão. Todo e qualquer cidadão americano será tratado com dignidade, e empresas, às vezes com relação centenária com o Brasil, serão tratadas com o mesmo respeito", afirmou Haddad, em entrevista à rádio CBN.
Também no radar, o BCE (Banco Central Europeu) deixou sua taxa de juros inalterada nesta quinta após oito cortes em um ano.
Com a inflação de volta à meta de 2% e com a expectativa de que permaneça nesse patamar, as autoridades optaram pela pausa no afrouxamento monetário. A manutenção também deriva das incertezas quanto ao comércio com os EUA, ainda que as negociações pareçam estar na reta final.



