RIO - O dólar comercial acentuou sua valorização no fim da sessão desta segunda-feira, com os investidores reagindo negativamente ao adiamento do anúncio das novas metas fiscais por causa da pressão política. A moeda avançou 0,88% contra o real, cotada a R$ 3,203 para venda. No começo da manhã, a divisa chegou a valer R$ 3,207, mas acabou perdendo força ao longo da tarde. Perto do fim da sessão, porém, o governo comunicou o novo adiamento, o que fez aumentar o temor de que os rombos serão maiores que os R$ 159 bilhões inicialmente previstos. A Bolsa, porém, passou ao largo desse cenário pessimista, com o índice de referência Ibovespa fechando em alta de 1,37%, aos 68.284 pontos, acompanhando seus pares no exterior com a percepção de que as tensões entre EUA e Coreia do Norte abrandaram.
A ala política do governo decidiu , que estava previsto para esta segunda-feira, foi adiado. Segundo interlocutores do governo, a ala política quer que as metas subam para um déficit de R$ 170 bilhões nos dois anos, mas o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, é contra.
— Essa notícia traz bastante apreensão ao mercado porque há a possibilidade de o déficit ser maior do que o previsto anteriormente. Essa decisão de anunciar rombo maior por três anos consecutivos traz novos riscos de rebaixamento. Enquanto a Bolsa está relativamente tranquila, o dólar está sendo o maior termômetro desse estresse local — disse Pablo Spyer, da Mirae Asset. — É uma situação inusitada por se tratar do “adiamento do adiamento” do anúncio do “rombo do rombo”.
Até então, havia a expectativa de que os déficits de 2017 e 2018 seriam de R$ 159 bilhões. Para 2017, a elevação é de R$ 20 bilhões porque a meta original é de R$ 139 bilhões. Para 2018, a elevação é de 30 bilhões, porque a meta projetada seria de R$ 129 bilhões.
— O número de R$ 159 bilhões já foi bastante discutido. O temor é que fuja disso e do que o ministro Meirelles deseja — disse Eduardo Roche, Canepa Asset Management, acrescentando que, na sexta-feira, chegaram a circular rumores de que o ministro da Fazenda deixaria o cargo em meio às discussões sobre TLP e a meta fiscal.
De acordo com Jaime Ferreira, superintendente de câmbio da corretora Intercam, metas com rombos maiores vão levar diretamente à piora do perfil de crédito do Brasil.
— Se isso acontecer, com certeza sofreremos mais um rebaixamento da nota do país pelas agências de classificação de risco — disse. — No que diz respeito aos déficits, a grande preocupação do mercado financeiro é que o Henrique Meirelles possa deixar o governo após o aumento das metas, algo que ele, até agora, se mostrou contrário — disse.
Ele lembrou que, além da meta fiscal, também pesa o andamento da aprovação da nova taxa de empréstimos do BNDES:
— Na sexta-feira, o rumor de que a TLP não seria aprovada gerou muito tumulto, com os investidores temendo o efeito disso nas contas do governo. Hoje, o que se comenta é que ela vai ser aprovada, mas isso ainda não é uma certeza — afirmou Jaime Ferreira, superintendente de câmbio da corretora Intercam.
A Taxa de Juros de Longo Prazo (TLP) será a nova taxa de referência para os financiamentos do BNDES. Hoje, esse crédito é atrelado à TJLP, que, por ser menor que a taxa básica de juros do país, representa um subsídio. A ideia do governo é que ela comece a vigorar no início de 2018, no mesmo patamar que a TJLP, mas que, num período de cinco anos, se igualaria à taxa da NTN-B — um título público que rende inflação mais uma taxa de juros determinada pela demanda dos investidores. Segundo o governo, isso aliviaria seu caixa porque reduziria o subsídio.
A leitura do relatório sobre a TLP em comissão do Congresso está prevista para esta semana. Na semana passada, segundo interlocutores do governo, o chamado “centrão” da Câmara ameaçou prejudicar a votação da TLP caso o governo se o governo não der alívio maior para as empresas no Refis, programa de renegociação de dívidas no formato em que ele saiu do Executivo. À agência de notícias Bloomberg, fontes do governo disseram nesta segunda-feira que mantém o projeto da TLP.
No Ibovespa, quase todas as ações que compõem o índice operam em alta. O Banco do Brasil teve alta de 0,61%, enquanto o Bradesco avançou 1,99%. O Itaú Unibanco valorizou-se em 1,81%. A Vale subiu 1,62% (ON) e 1,46% (PNA). Na Petrobras, a alta foi de 0,67% (ON) e 1% (PN).



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