BRASÍLIA - Antes mesmo de divulgar quais empresas que receberão os R$ 15 milhões para serem usados em projetos que unam tecnologias de já existentes e problemas da economia brasileira, o dobrará o valor do investimento. A verba para ser doada será de R$ 30 milhões. O projeto-piloto que está em andamento teve mais procura que o esperado. As empresas entraram com contrapartidas maiores do que se imaginava. Diante de tanta demanda, o banco resolveu expandir. A estimativa dos técnicos envolvidos é que a revolução causada por essa tecnologia pode fazer a economia brasileira aumentar em até US$ 200 bilhões nos próximos anos. Isso representa um crescimento de 3%. Há, entretanto, vários entraves. Por isso, o governo já tem pronto um decreto para regulamentar o setor. Deve ser editado após as eleições.
Segundo informou ao GLOBO a diretora de empresas do BNDES, Cláudia Prates, a chamada feita pela instituição superou todas expectativas. No modelo construído pelo banco, empresas, startups, universidades e hospitais se uniram em consórcios para promover as novidades em tratamento de doenças crônicas, utilidade no campo, produtividade na indústria e cidades inteligentes.
Foram apresentadas 54 propostas. A maior parte para a construção de soluções de cidades inteligentes. A procura foi tanta que, se conseguisse atender todo mundo só nesse segmento, o BNDES gastaria R$ 118 milhões. Esse dinheiro não é um empréstimo, mas uma doação.
— A gente podia estar gastando com pessoal, mas estamos investindo em algo que vai mudar o Brasil — fala Cláudia, que fica brava quando alguém diz que os recursos são “a fundo perdido”:
— Não é fundo perdido. É investimento.
Em busca desse investimento, 22 prefeituras procuraram o BNDES com projetos para facilitar a vida das pessoas. Seja semáforos inteligentes (que não deixam carros no sinal vermelho quando não precisa) ou colocar sensores em diversos locais da cidade para saber exatamente quando o ônibus vai passar ou qualquer outra ideia que une tecnologias já existentes com problemas antigos. A maior parte dos projetos foi em segurança pública, água e saneamento e mobilidade urbana.
Todos têm algo em comum: análise de dados. Em saúde, por exemplo, o destaque é o monitoramento de pacientes com doenças crônicas. O problema para isso ainda está na regulação. É preciso ter normas sobre o sigilo dos dados e tratamento à distância. Enquanto aguarda o novo decreto, o BNDES escolhe os projetos. Segundo a instituição, foram apresentam parcerias bem estruturadas entre hospitais, instituições de tecnologia, empresas, startups e setor público. Os consórcios são liderados por hospitais filantrópicos de excelência ou públicos.
Já no campo, o desafio é maior e pode render dinheiro para o país mais rapidamente. O problema é que internet de qualidade não é um item disponível com facilidade nos rincões do país, mas os projetos já feitos com o BNDES mostraram que vale a pena modernizar. Num deles, que deixou a rede de escoamento da safra de uma fazenda, a produtividade aumentou em 20%. Atentos aos resultados rápidos, os consórcios apresentaram propostas voltadas ao uso eficiente de recursos naturais e insumos, uso eficiente de maquinário e segurança sanitária e bem-estar do animal para as mais diversas cadeias produtivas do Brasil.
Querem criar plataformas de gestão em tempo real de máquinas agrícolas com algoritmos de inteligência artificial para geração de indicadores de desempenho e manutenção preventiva, por exemplo. A invasão nerd no campo vai além: modelos dinâmicos de alta precisão para previsão do tempo, monitoramento de plantações via drones, armadilhas eletrônicas para controle de pragas e até acompanhamento do comportamento de animais e definição de ponto ótimo de abate por meios de sensores.
Os projetos selecionados devem ser anunciados nos próximos dias. As empresas têm interesse em vender as tecnologias já prontas, mas o modelo deve ser publico. Ou seja, o conhecimento e os resultados dos projetos devem ser divulgados pelo BNDES para que todos os empreendedores conheçam as soluções e seus resultados para poder replicar as iniciativas em todas as regiões.
— O bem público é a integração - explicou o chefe do departamento de Tecnologia da Informação do BNDES, Ricardo Rivera.
Enquanto isso, está pronto na Casa Civil o projeto para criar normas e dar segurança jurídica para quem investir em internet das coisas. O vácuo das leis impede uma vida melhor para os brasileiros. A área técnica ainda pediu que o governo mexa em normas tire algumas exigências de compras públicas que complicam a contratação de soluções tecnológicas, reconheça informática em saúde como área de conhecimento pelos órgãos de educação, incentive startups, diminua a burocracia e pulverize recursos para startups de áreas que não estão alinhadas com os órgãos financiadores.
— A tecnologia vai chegar de qualquer jeito aqui. A diferença é em quanto tempo vai chegar. Para acelerar o processo, temos de tirar todas as barreiras — declarou José Gustavo Gontijo, diretor do departamento de Ciência e Inovação do Ministério das Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

