BUENOS AIRES - Depois de um primeiro ano duríssimo, que terminou com queda de 2,2% do PIB, nos últimos três meses, o governo do presidente da Argentina, Mauricio Macri, respirou aliviado. A economia, finalmente, começou a mostrar sólidos sinais de recuperação, destacados recentemente pelo diretor do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Alejandro Werner. Em visita ao país, Werner assegurou que, em 2017, a Argentina terá um dos crescimentos “mais altos da região”. Impulsionada, principalmente, pelo setor da construção, a reativação econômica argentina permitiria ao país, segundo analistas e organismos internacionais, fechar o ano com variação positiva do PIB de até 3%.
As obras públicas são, claramente, o motor do reaquecimento econômico da Argentina. Todas as semanas, Macri inaugura obras, principalmente viárias, na capital e na província de Buenos Aires. Já foram aprovadas concessões no total de US$ 2,1 bilhões, e o impacto nos indicadores do setor foi imediato: de acordo com o Indec (o IBGE local), em julho passado a construção subiu 20,3% em relação ao mesmo mês de 2016.
— Nosso setor começou a se recuperar em setembro do ano passado, e nos últimos 12 meses já foram criados 50 mil postos de trabalho — disse ao GLOBO o presidente da Câmara da Construção, Gustavo Weiss.
Segundo ele, o setor fechará o ano com crescimento de mais de 12%.
— Em 2016, tivemos queda de 12%. O impulso dado pelo governo Macri às obras públicas em Buenos Aires, Santa Fe e Córdoba está dando bons resultados — avaliou Weiss.
Para o presidente da Câmara da Construção e para a grande maioria dos analistas políticos e econômicos do país, a vitória da aliança governista Mudemos nas recentes primárias para as eleições Legislativas do próximo dia 22 de outubro criou um clima de confiança no governo e, sobretudo, ajudou a dar previsibilidade à economia. O temor de uma vitória do kirchnerismo, que pudesse antecipar um eventual retorno dos Kirchner ao poder em 2019, preocupava e muito os empresários argentinos e estrangeiros. A ex-presidente Cristina Kirchner, candidata a senadora, venceu na província de Buenos Aires, mas o partido de Macri foi o mais votado em todo o país.
— Estamos com obras viárias de grande magnitude, viadutos, conexão entre estradas e, também, projetos no setor ferroviário — disse o presidente da Câmara da Construção.
Ele avalia que, no ano que vem, haverá forte reativação na construção privada, impulsionada pelos novos créditos hipotecários lançados pelo governo, que estão permitindo à classe média comprar seu primeiro imóvel pagando parcelas similares a um aluguel.
Nos últimos três meses, os números da economia argentina viraram uma boa notícia, algo que não acontecia no país há pelo menos quatro anos. A previsão de crescimento para este ano é de até 3% e de 3,5% para 2018. O consumo, que caiu 1,4% em 2016, deverá subir 2,5% em 2017. E a inflação, uma das maiores dores de cabeça dos argentinos nos últimos anos, cairia dos 36% do ano passado para cerca de 22,7%. No ano que vem, empresas de consultoria privadas como a Abeceb estimam que o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) ficará em 14,9%.
Mas o déficit fiscal ainda preocupa. Em 2016, chegou a 4,3% do PIB. Economistas calculam que, este ano, ele cairia a 4,2% e poderia, no melhor cenário, chegar a 3,2% em 2018. Esse é o principal desafio do presidente argentino.
— O grande problema é que a sociedade não está disposta a suportar o que seria necessário para baixar significativamente o déficit fiscal, e Macri sabe disso. Vai levar tempo, e o risco é que estamos nos financiando com endividamento externo — explicou Ivan Sasovosky, da Sasovosky e Associados.
Este ano, a Casa Rosada esperava que a Argentina passasse a ser considerada um mercado “emergente” e não “de fronteira” pelo banco de investimentos Morgan Stanley. Mas o país não conseguiu entrar no chamado índice MSCI, o que implica, na prática, continuar pagando juros mais altos — em média de 8% — do que nações como Chile, Colômbia ou Peru.
— O endividamento ainda não preocupa, mas deve ser monitorado com atenção — alertou Sasovosky.
O presidente e a equipe econômica estão dando prioridade à redução do déficit fiscal.
— Se não se preocuparem em reduzir o déficit fiscal, isso aqui não avança — declarou Macri.
O ministro da Economia, Nicolás Dujovne, admitiu que “o desafio do déficit é duríssimo”, e o governo aposta em aprovar reformas tributária e trabalhista e, provavelmente, uma nova redução de subsídios, para cumprir sua meta.
Em pouco mais de um ano e meio de gestão, o governo Macri eliminou as restrições no mercado cambial, aplicou um forte ajuste, fechou um acordo com os “fundos abutres” (que entraram em disputa judicial com a Argentina em tribunais americanos) e legalizou US$ 114 bilhões que estavam depositados e guardados fora do país — pontos que estão entre as medidas mais bem-sucedidas da administração atual.
Este ano, os primeiros resultados positivos começaram a surgir, e Macri espera que a segunda metade de seu mandato seja menos conturbada e que os esperados investimentos estrangeiros comecem a chegar.
— Já estamos recebendo investimentos estrangeiros, mas muitos vão para o mercado financeiro pelos juros altos que o país oferece — concluiu Sasovosky.

