RIO - As decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a trajetória dos juros básicos na economia não determinam apenas a base a partir da qual se estrutura a formação das taxas dos papéis públicos e das diversas modalidades de financiamento. Com a chancela da autoridade monetária, expressa nos comunicados do Copom, colegiado formado pelos diretores do Banco Central, essas decisões também embutem mensagens relevantes sobre as perspectivas econômicas futuras, afetando definições de investimento e de consumo.
Nesse sentido, o Banco Central viveu um possível dilema ao fixar, na reunião do Copom desta quarta-feira, a taxa básica de juros em 10,25% nominais ao ano, com o corte de “apenas" 1 ponto porcentual. Ao preferir ser mais cauteloso, o BC se viu na contingência de destoar do governo sobre o andamento das reformas estruturais em curso e sua efetividade no processo de ajuste da economia.
Até a delação da JBS que atingiu o coração do governo, envolvendo diretamente o próprio presidente Michel Temer, Banco Central e mercado estavam afinados na ideia de que seria possível acelerar o passo no atual ciclo de cortes da taxa Selic — a grande maioria apostava numa redução de 1,25 ponto e até crescia o grupo de analistas que considerava possível um corte de 1,5 ponto. Depois do evento, que lançou dúvidas sobre a permanência de Temer na Presidência, provocou abalos na base aliada no Congresso e produziu incertezas sobre o destino das reformas, emergiram temores de que uma eventual quebra das expectativas favoráveis em relação aos ajustes previstos pudesse produzir pressões inflacionárias, traduzidas principalmente em pressões sobre a taxa de câmbio.
O freio agora decidido no ritmo de corte dos juros básicos tem origem inequívoca nesses temores que o próprio Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tanto se esforçam em exorcizar -- o comunicado emitido no encerramento da reunião do Copom não deixa margem a dúvidas. Só mais à frente será possível conferir, mas num quadro ainda nitidamente deflacionário, no qual a atividade econômica se mantém muito enfraquecida, a decisão do Copom, tudo considerado, pode significar um duplo erro.
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