Era manhã de quarta-feira, por volta das 8h30, quando o céu do Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, virou fogo. Moradores da região do rio Curuçá — ribeirinhos, seringueiros e indígenas do território que hoje corresponde ao município de Atalaia do Norte — descreveram bolas incandescentes despencando do alto, uma sucessão de estrondos, tremor no chão, mudança na cor do céu e uma nuvem de poeira sobre a mata. Era 13 de agosto de 1930, há exatos 96 anos.
O episódio quase se perdeu por causa do isolamento da área. Quem o registrou foi um frade capuchinho que fazia missão pela região e chegou ao local poucos dias depois: ele ouviu testemunhas, anotou os relatos de terra tremendo e de seringueiros apavorados e publicou o material tempos mais tarde. Do outro lado do continente, um observatório sismológico em La Paz, na Bolívia, havia captado abalo compatível com a mesma data — indício independente de que algo grande de fato atingiu aquele pedaço de floresta.
O caso só voltou ao radar científico décadas depois. A partir dos anos 1990, pesquisadores brasileiros e estrangeiros reabriram o dossiê; uma equipe ligada ao Observatório Nacional foi à região e, com imagens de satélite, apontou uma estrutura circular de cerca de um quilômetro que poderia ter relação com a queda. A hipótese segue em aberto: não há cratera confirmada, e as estimativas de energia liberada variam bastante conforme o autor, de frações de megaton a valores muito maiores.
Ainda assim, o evento do Curuçá é tratado como um dos maiores fenômenos do tipo registrados no século 20, na mesma prateleira do famoso caso de Tunguska, ocorrido na Sibéria em 1908 — daí o apelido de "Tunguska brasileiro". Há um detalhe que ajuda a explicar a data: agosto é o período de atividade das Perseidas, chuva de meteoros associada ao cometa Swift-Tuttle, e parte dos pesquisadores defende que fragmentos desse enxame estejam por trás do que caiu sobre o Javari naquela manhã.



Aviso