A palmeira murumuru, espinhenta e comum nas áreas de várzea da Amazônia, esconde no caroço do seu fruto uma manteiga que se torna sólida à temperatura ambiente. Por gerações, famílias ribeirinhas e indígenas extraem esse óleo de forma artesanal para amaciar e proteger os cabelos do sol e da umidade da floresta — um hábito que, décadas atrás, cruzou o oceano e virou item de luxo em cosméticos europeus e norte-americanos.
O que explica essa fama é a composição: a manteiga é rica em ácidos láurico, mirístico e oleico, e derrete a uma temperatura mais alta do que a manteiga de coco, o que a torna mais estável em climas quentes — uma vantagem e tanto num produto que precisa manter a textura firme dentro do pote, mesmo debaixo do calor amazônico. Sem cheiro, sem sabor e resistente ao ranço, ela ainda forma uma película protetora nos fios e na pele, o que explica seu uso disseminado em xampus, cremes, sabonetes e batons.
Agora a manteiga ganhou um capítulo novo, mais técnico: pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em parceria com a Universidade de Parma, na Itália, testam em laboratório se ela pode substituir tensoativos sintéticos — substâncias usadas para fazer remédios de uso na pele penetrarem melhor no organismo, mas que às vezes provocam alergias e irritações. Os primeiros resultados mostram baixa toxicidade e bom desempenho na penetração cutânea, mas a pesquisa ainda está em fase de laboratório, sem testes em pacientes.
Isso significa que a manteiga de murumuru vendida hoje em prateleiras de cosmético continua sendo isso mesmo: um cosmético, não um remédio. Seu possível uso terapêutico depende de anos de pesquisa até se tornar um produto testado e aprovado para humanos, e o hábito não substitui orientação médica para problemas de pele ou cabelo. Como qualquer derivado de palmeira, vale a cautela de testar uma pequena quantidade na pele antes do uso, sobretudo para quem já teve reação alérgica a plantas da mesma família.
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