CHAPECÓ (SC) — Os impactos da destruição parcial de um muro de 18 metros de altura e 46 de comprimento da hidrelétrica Foz do Chapecó, na divisa entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, estão no centro de uma controvérsia entre os construtores e gestores da barragem, que dizem não ver risco de acidente, e um consultor especializado, contratado pelos próprios operadores, que encontrou falhas na estabilidade estrutural da usina, decorrentes do acidente.
Engenheiro especializado em estruturas de concreto, o consultor Milton Emílio Vivan alertou os gestores da hidrelétrica, em análise encaminhada no dia 21 de julho, que o bloco 5, o trecho da barragem onde parte do muro desabou, está “não conforme”, o que significa fora dos padrões de segurança de estruturas estabelecidos pela Eletrobras. O GLOBO, que teve acesso ao documento, submeteu-o a um outro engenheiro especializado e sem ligação com o autor do laudo, que considerou a análise “bastante séria”.
Com 48 metros de altura e 598 metros de comprimento, entre as cidades de Águas de Chapecó (SC) e Alpestre (RS), a hidrelétrica Foz do Chapecó é um colosso de concreto e pedra que produz 855MW de energia, suficiente para abastecer cinco milhões de casas — o que corresponde a 25% de toda a energia consumida em Santa Catarina e a 18% do Rio Grande do Sul. Foi erguida numa alça do Rio Uruguai, a “Volta Grande”, com pelo menos 11 cidades próximas, a jusante (abaixo do vertedouro).
O problema na barragem começou em junho de 2014, quando metade do muro central do vertedouro da hidrelétrica foi arrancada pelas cheias. Desde o primeiro acidente, o consórcio gestor, o Foz do Chapecó Energia (FCE), e o construtor, o Consócio Volta Grande (CVG), liderado pela empreiteira Camargo Corrêa, travam uma queda de braço para definir de quem é a responsabilidade pelo problema. A disputa desaguou em ação na 44ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo e em processo no Centro de Arbitragem e Mediação da Câmara de Comércio Brasil-Canadá. Quem perder terá de arcar com os custos.
A FCE reunirá hoje na usina representantes dos construtores, dos gestores e o engenheiro Milton Vivan, autor do laudo, para debater o alcance dos danos e o que pode ser feito para resolver o problema.
Procurado pelo GLOBO, Vivan confirmou a autoria da análise, mas ressalvou que o estudo é “inconclusivo” porque os problemas encontrados necessitam de análises mais profundas antes de se decidir as intervenções na barragem.
— Não sou dono de verdade nenhuma. Temos de tomar cuidado com as interpretações incorretas de questões técnicas.
Vivan considera fundamental trabalhar com os dados extraídos de “estudos e análises" para a recuperação da estabilidade da obra:
— Existem critérios de cálculo e a situação real. Às vezes, os critérios não se reproduzem na prática.

