SÃO PAULO - “Quem fez isso não tem mãe nem filho”, chorava a cabeleireira Maria dos Anjos Rodrigues Cordeiro, de 62 anos. A moradora da vizinhança conhecida como Jova Rural, no bairro de Jaçanã, zona Norte de São Paulo, tinha acabado de agendar o enterro do filho, Sidnei Cordeiro, de 38 anos, uma das seis vítimas fatais da chacina que ocorreu na região, nesta madrugada. Nenhum suspeito foi localizado e a polícia investiga a motivação do crime. A Secretaria Estadual de Segurança Pública
— Eram todos amigos, pais, filhos, maridos. Meu filho foi encontrar com a turma e acabou morto. Pode puxar a ficha de todo mundo que não vai encontrar nada de ninguém — defende a cabeleireira.
Mineira, Maria dividia o terreno da casa com o filho mais velho, que mantinha ali um pequeno bar. Enquanto ele tocava o comércio, ela atendia as vizinhas do bairro, descrito por todos como pacato. Com olhar perdido e um lenço de papel que ora enxugava suas lágrimas ora secava o rosto de suor, diz que não consegue imaginar a motivação do crime.
A região é humilde, com casas simples, as ruas são asfaltadas e arborizadas. A maioria dos moradores se conhece desde novo. “Ninguém nunca nem foi assaltado aqui”, relatou uma mulher que cresceu com as vítimas. “É um bairro familiar”, apontou outra pessoa. Eles, como os outros moradores, não quiseram se identificar.
O clima de segurança deve-se, em parte, a um posto policial localizado a 200 metros do local do crime.
— Ninguém ia fazer besteira aqui — opinou uma outra testemunha.
O clima de tristeza calou o bairro, que ficou conhecido nacionalmente nos anos 60 graças ao samba “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa. Poucas pessoas quiseram falar sobre o crime.
— Estamos em choque e sem entender — explicou uma senhora baixinha, frequentadora do bar onde tudo ocorreu. — Aqui tinha festa direto. Amanhã mesmo estava marcado um aniversário.
O caso está sendo investigado pela Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). No boletim de ocorrência registrado no 73 DP (Jaçanã), uma das testemunhas relata que dois homens desconhecidos chegaram ao bar da Rua Antônio Sérgio de Matos numa motocicleta e “começaram a atirar”.
Sidnei Cordeiro, Valdir Pereira, Adriano dos Anjos, Wellington de Souza, Gilmar Vieira e Fernando morreram no local. Alexandro de Oliveira, Júnior Pereira e José Francisco foram levados para três hospitais da região.
Júnior, que está no Hospital do Mandaqui, foi operado e o quadro dele é estável, segundo a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Não há informações sobre o estado de saúde dos demais. Quase nenhuma das vítimas tinha passagem pela polícia, somente Adriano, por tráfico de drogas, oito anos atrás.

