No dia 15 daquele mês, Bruno Carvalho Cabral, de 16 anos, almoçou na casa que seu pai, Adeílson Cabral, dividia com a então mulher, Cintia - Adeílson era separado de Jane Cabral, mãe de Bruno - em Padre Miguel, na zona oeste do Rio. O adolescente passou mal após a refeição - ele reclamou do gosto do feijão e estranhou a presença de uma substância azul.
O adolescente se sentiu zonzo, ficou molhado de suor e logo não conseguia mais falar, com a língua enrolando. Foi internado no Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo (zona oeste do Rio), e conseguiu se recuperar da intoxicação - teve alta quatro dias depois.
Cintia foi presa no dia 20 sob a suspeita de tentar envenenar o enteado. Inicialmente ela afirmou à Polícia Civil que a substância azul detectada no feijão era um tempero industrializado para alimentos. Depois, em depoimento oficial e acompanhado por advogado, manteve-se em silêncio.
A partir da suposta tentativa de matar o enteado, a madrasta começou a ser investigada também pela morte da irmã de Bruno, Fernanda Carvalho Cabral, de 22 anos. Ela morreu em 28 de março, após apresentar sintomas semelhantes aos do irmão e passar 13 dias internada no mesmo hospital.
Quando ela chegou à unidade de saúde ainda não havia suspeita de envenenamento, por isso não houve tratamento imediato específico para isso. O corpo de Fernanda foi exumado em 26 de maio e os exames realizados pelo Instituto Médico Legal foram inconclusivos, devido ao tempo passado desde a morte. Mas, segundo a polícia, o conjunto de informações permite concluir que ela foi envenenada.
A perícia indicou que Fernanda foi vítima de intoxicação por algum inibidor da enzima acetilcolinesterase, fundamental para a propagação do impulso nervoso. Esse tipo de inibição é produzida por carbamatos (substâncias popularmente conhecidas como chumbinho) e pesticidas e causa exatamente os sintomas apresentados por Fernanda e Bruno.
Também foi feito exame do material gástrico de Bruno, que identificou dois tipos de pesticidas no estômago dele.
O delegado Flavio Rodrigues, titular da 33ª DP (Realengo) e responsável pela investigação do caso, concedeu entrevista coletiva nesta quinta-feira e comentou a conduta da madrasta quando o enteado reclamou do gosto do feijão. "Chama muita atenção a indiciada recolher o prato de Bruno e levar ao cooktop, apagar a luz e servir mais feijão. Como isso vai passar despercebido? Quem de nós faria isso em nossa casa se reclamássemos do gosto amargo da comida? Quando alguém reclama de gosto, geralmente joga a comida fora. Mas ela recolhe o prato e serve mais feijão. E só o garoto reclamou do gosto do feijão. Foi o primeiro evento que chamou a atenção", afirmou.
O delegado também citou os depoimentos prestados por dois filhos biológicos de Cíntia, que afirmaram ter ouvido dela a confissão do crime. "Lucas fala: Minha mãe me confessou em uma conversa que tive com ela que envenenou o Bruno e a Fernanda há dois meses porque não queria dividir a atenção do companheiro. Minha mãe confessou isso para mim. Há 21 anos na polícia, eu nunca tinha visto alguém vir a público pedir justiça por um crime praticado pela própria mãe", afirmou.
O E stadão procurou a defesa de Cintia para que se pronunciasse sobre o indiciamento, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

