RIO — Para comemorar os 43 anos, em 17 de setembro, a cientista política Karina Junqueira reuniu parentes e amigos mais próximos na mesa de um bar. O grupo de sete pessoas conversava animadamente quando, já no final da festa, ela e o irmão engataram um debate sobre política que acabou se transformando em bate-boca. Os convidados decidiram se levantar. Ficaram apenas os dois, tentando chegar a um consenso sobre o assunto.
— Meu irmão tem orientação política totalmente contrária da minha. Com ele, não tem nem conversa. As pessoas um pouco mais distantes da minha família, como primos e tios, também já estão bloqueadas nas minhas redes sociais — disse Karina.
O caso da cientista política não é uma exceção. Com o debate político cada vez mais polarizado, os desentendimentos acontecem com frequência e muitas vezes extrapolam o limite das redes. Mas como tratar de um tema tão polêmico em família? Para especialistas ouvidos pelo O GLOBO, o assunto não precisa ser evitado, mas exige cautela.
A designer de interiores Marcele Nasi, de 30 anos, também do Rio, recebia em casa a irmã e a mãe Márcia Nasi, 60 . As três assistiam às notícias sobre o ataque a Bolsonaro na TV e faziam comentários. Como Marcele é contra o candidato do PSL e Márcia é a favor, o papo degringolou.
— Essa discussão foi dias depois da facada. Não entra na minha cabeça como elas veem nele uma saída para o país — disse Marcele.
Márcia explica sua opção por Bolsonaro:
— Eu vivi num momento militar. Tenho 60 anos. A gente vivia tranquilo. Eu não sou anarquista. Naquela época, tinha medo de militar quem era anarquista. Não sei porque a minha filha tem essa ojeriza do Bolsonaro. Sou totalmente a favor dele. Maldita a hora que o voto deixou de ser secreto dentro de casa — diz Márcia.
A professora carioca Meg Rocha, de 27 anos, está estremecida com o pai. Ele é eleitor de Jair Bolsonaro, do PSL, e Meg vota em Ciro Gomes, do PDT. Os dois moram na mesma casa, mas agora pararam de conversar sobre qualquer assunto. Os diálogos estão restritos a “oi”, “bom dia” e “boa noite”. Meg lembra que a discussão mais fervorosa aconteceu logo após uma entrevista de Bolsonaro na TV.
— Nós estávamos conversando enquanto víamos TV, quando fiz uma crítica e começamos a brigar. Acho que depois da eleição isso vai passar, pois nos damos muito bem. Mas, por enquanto, estamos falando apenas o essencial — afirmou Meg, que também já foi excluída de uma rede social pela madrinha e por seus primos.
A dona de casa Natália Ferreira Aguirre, de 23 anos, que mora no Rio, discutiu com o padrasto ao buscar o filho na casa da mãe. A briga foi provocada por causa de dúvidas sobre a veracidade de uma das fotos de um protesto contra Bolsonaro que viralizou na internet. A imagem, no entanto, é verdadeira.
— Eu provei para ele que a informação de que aquela foto era uma montagem era ‘fake news’. Não evito discussão. Bato de frente porque tenho argumentos — disse Natália, que também já se indispôs com primos e marido pela mesma razão.
O historiador Ricardo Van Acker, 55 anos, conta que a família sempre foi politizada. Havia um tio comunista, que chegou a ser exilado, e outro químico em uma multinacional, apoiador do partido republicano nos Estados Unidos. Já existia um histórico de polarização, mas era algo contornável, segundo ele.
— Esses dois lados sempre conviveram mais ou menos bem. Mas com o desenrolar do processo político, a situação foi ficando bem ruim.
A tensão começou a aumentar em 2014, com o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, que suscitou opiniões muito divergentes. A partir disso, as festas de Natal, que costumavam ser concorridas e reunir até 50 pessoas, nunca mais foram as mesmas.
— As pessoas foram se distanciando a ponto de esfriar totalmente a convivência. Acho que esse ano nem vai mais ter Natal, será cada um em sua casa — afirmou.
Christiane Valente Vieira, especialista em psicologia sistêmica familiar, conta que esse tipo de discórdia já chegou aos consultórios terapêuticos. Ela acredita que, passado o calor das eleições, esses desentendimentos devem superados:
— Depois que passar um tempo, elas vão falar: “gente como eu fiz isso? Como tive coragem de abrir mão de um amigo que esteve comigo a vida inteira?”. É esperado que as pessoas voltem para suas realidades. Elas vão pedir desculpas para o amigo e o parente com quem brigaram.
A consultora e palestrante na área de Desenvolvimento de Pessoas, Gisela Chicralla, os conflitos são naturais. Mas o ideal é procurar moderação nas discussões.
— Quando é funcional, o conflito não é ruim, porque pode incentivar a troca de novas ideias. O problema é o conflito disfuncional, quando as ideias são divergentes e não é possível extrair nada de bom. É preciso respeito e a compreensão de que as pessoas são diferentes — afirmou.
A psicóloga clínica Sally Carvalho concorda com a ponderação da professora: é preciso sempre esforço para buscar um meio termo.
— As pessoas às vezes têm uma manifestação mais agressiva e não precisa ser assim. Tem de ser uma discussão relevante, no sentido de encontrar soluções para o país — afirmou.

