Em escavações que ocorreram de 2017 a 2019, o dinossauro que recebeu o nome de Mbiresaurus raathi, chamou a atenção por seu estado de preservação. Segundo os cientistas, ele é tão antigo quanto os mais antigos já encontrados, que tem cerca de 230 milhões de anos. A descoberta foi publicada nesta quarta-feira, 31, na revista científica Nature .
Trata-se de um sauropodomorfo (um dinossauro de pescoço comprido), com cerca de 1,83 m de comprimento e uma cauda longa. O esqueleto do mais antigo dinossauro já encontrado na África encontra-se quase completo, faltando apenas algumas partes do crânio e de uma pata dianteira.
Segundo os cientistas, a descoberta preenche uma lacuna geográfica nos registros dos dinossauros mais antigos. "Os primeiros dinossauros, como o Mbiresaurus raathi, mostram que a evolução dos dinossauros ainda está sendo escrita a cada nova descoberta e que a sua ascensão foi muito mais complexa do que o previsto anteriormente", diz Sterling Nesbitt, um dos autores do estudo.
O grupo de pesquisadores tem agora uma nova teoria sobre o processo de dispersão dos dinossauros pelo mundo, que apoia a hipótese de que os primeiros dinossauros foram condicionados pelo clima a habitar apenas algumas áreas do planeta.
Os cientistas acreditam que quando o supercontinente Pangeia ainda não tinha se separado, o clima era dividido em zonas mais temperadas nas latitudes mais altas e desertos nos trópicos inferiores. Essa divisão influenciaria a distribuição dos animais pelo continente, o que significaria que a dispersão dos dinossauros foi condicionada pela latitude - eles estariam restritos ao sul da Pangeia, a aproximadamente 50º de latitude. Com a separação continental, teriam se dispersado pelo mundo pelo restante do Período Triássico, de acordo com a equipe.
Para reforçar essa afirmação, eles combinaram dados geoquímicos e fósseis em conjunto com informações sobre a genealogia dos animais. Como os dinossauros mais antigos (com cerca de 230 milhões de anos) foram encontrados em áreas da Argentina, Brasil e Índia, o grupo de pesquisadores procurou propositalmente no Zimbábue, cujo norte também fica no mesmo cinturão climático, preenchendo a lacuna geográfica entre o Sul do Brasil e a Índia.
Segundo os pesquisadores, o Mbiresaurus se locomovia apoiado nas patas traseiras e tinha uma cabeça relativamente pequena. Seus dentes são pequenos, serrilhados e em forma de triângulo, o que sugere que ele era herbívoro ou onívoro. O nome escolhido para o fóssil une "Mbire", nome do distrito onde o animal foi encontrado e de uma dinastia Shona que historicamente governou a região, e "raathi", uma homenagem ao paleontólogo Michael Raath, o primeiro a encontrar fósseis no norte do Zimbábue.
"Nunca esperamos encontrar um esqueleto de dinossauro tão completo e bem preservado", disse Christopher Griffin, outro autor do estudo publicado na Nature . "Quando encontrei o fêmur do Mbiresaurus, imediatamente o reconheci como pertencente a um dinossauro e sabia que estava segurando o dinossauro mais antigo já encontrado na África. Quando continuei cavando e encontrei o osso do quadril esquerdo ao lado do osso da coxa esquerda, tive de parar e respirar; eu sabia que muito do esqueleto provavelmente estava lá, ainda articulado em posição de vida", relata.
A equipe internacional envolvida na descoberta contou com paleontólogos dos Museus e Monumentos Nacionais do Zimbábue, do Museu de História Natural do Zimbábue e da Universidade de São Paulo (USP). Ao lado do esqueleto do sauropodomorfo, foram achados outros fósseis do mesmo período, a idade Carniana do período Triássico Superior. Os cientistas citam um dinossauro herrerassaurídeo (um dos primeiros carnívoros); parentes de crocodilos e parentes de mamíferos primitivos, os cinodontes.
Grande parte do esqueleto do Mbiresaurus está sendo mantida na Universidade Estadual da Virgínia enquanto é limpo e estudado. Depois, ele e os outros fósseis encontrados ficarão permanentemente no Museu de História Natural do Zimbábue, em Bulawayo. Segundo Michel Zondo, curador e preparador de fósseis do museu, trata-se da primeira descoberta de um sauropodomorfo desse tamanho no país, que já registrou fósseis de médio a grande porte. "O fato de o esqueleto do Mbiresaurus estar quase completo o torna um material de referência perfeito para novas descobertas", completa.
Darlington Munyikwa, vice-diretor executivo dos Museus e Monumentos Nacionais do Zimbábue, acrescenta: "uma série de sítios de fósseis que aguardam exploração futura foram registrados, destacando o potencial da área para contribuir com mais materiais científicos valiosos."

