BRASÍLIA. O novo presidente do fundo de investimento em infraestrutura do FGTS (FI-FGTS), Luiz Fernando Emediato, escolhido para o cargo nesta quarta-feira, é citado na delação da JBS. Na gravação, o diretor da holding (J&F), Ricardo Saud, conta que pagou propina a Emediato, quando ele era assessor especial do ex-ministro do Trabalho, Brizola Neto (entre 2012 e 2013).
Na gravação, Saud disse que se aproximou de Emediato para pedir ajuda do Ministério na área de fiscalização. A queixa era que o JBS estava sofrendo uma fiscalização desleal com os pequenos frigoríficos, "que nunca tinham sido fiscalizados".
Emediato, segundo Saud, teria dito inicialmente que não podia interferir no trabalho dos fiscais, que tinham iniciativa própria. Mas que faria um projeto piloto no Rio e em Minas Gerais para intensificar o serviço nos pequenos frigoríficos. Pelo trabalho, cobraria R$ 20 mil por frigorífico, disse Saud. O valor total da propina chegou a R$ 2,8 milhões, de acordo com o relato do diretor.
"Contratamos o Emediato num ato de propina para ele fiscalizar os pequenos (frigoríficos) que nunca tinha sido fiscalizados. Ele falou que ia fazer um piloto em Minas Gerais e no Rio de Janeiro e para isso, ia cobrar R$ 20 mil por frigorífico", disse Saud num dos anexos da delação.
"Eu paguei para ele fazer", emendou o diretor, acrescentando que o dinheiro foi pago diretamente a Emediato e ele emitiu nota fiscal da editora Geração, de propriedade de Emediato.
Saud disse acreditar, no início da conversa com Emediato, que um aperto da fiscalização nos pequenos frigoríficos, que funcionam "sem as mínimas condições", poderia levar ao fechamento de vários deles. Na delação, o diretor contou que o trabalho foi feito, mas não surtiu efeito e por isso, foi abandonado pela empresa.
Procurado, Emediato negou que tenha recebido o dinheiro da propina:
— Claro que não recebi — respondeu Emediato.
Emediato confirmou, em nota, que recebeu Saud na ocasião, mas que considerou "delírios" o pedido do diretor, que teria se oferecido para pagar aos fiscais pelo serviço.
"O senhor Saud realmente nos procurou, mas ele me acusa de um ato impossível. Incomodado com a fiscalização dos frigoríficos da JBS, ele realmente pediu ao MTE uma fiscalização "rigorosa" dos demais frigoríficos e em seus delírios propôs "pagar" aos fiscais por isso. Ninguém o levou a sério. Não era prioridade, naquele momento, fiscalizar este setor".
Na nota, ele confirmou que emitiu notas fiscais para o grupo, mas que elas se referem a um serviço de assessoria prestado por sua empresa Geração e Comunicação na campanha publicitária da Friboi. Emediato contou também que a JBS patrocinou um filme dele, baseando num livro de sua autoria.
Segundo Emediato as denúncias não afetam seu trabalho na presidência do FI-FGTS:
"Essas denúncias vazias provocam um desconforto, mas não afetam em nada o FI, porque a gestão não é do Colegiado que presidirei, mas de uma equipe técnica da CEF. O presidente apenas coordena a reunião, nem sequer tem papel preponderante nas decisões".
A citação de Emediato na delação foi comentada durante a reunião do comitê de investimentos do FI-FGTS, que o elegeu. Mas os membros do colegiado concluíram que isso não justificaria seu afastamento (ele é membro do comitê desde 2014) e nem poderia vetar a indicação dele para a presidência do FI-FGTS - que é rotativa (governo, empregadores e trabalhadores). Segundo interlocutores, o fato narrado por Saud é anterior à entrada de Emediato no comitê, em 2014.
Emediato foi escolhido pela bancada dos trabalhadores, da qual a CUT não participa por decisão própria. O mandato é de um ano.
No bojo da Operação Lava Jato da Polícia Federal vieram à tona vários investimentos realizados pelo FI-FGTS nas empresas envolvidas com as irregularidades, como Sete Brasil, Odebrecht Transport. Como grupo J&F, o Fundo fez em 2012 um aporte de R$ 940 milhões, que correspondem hoje a R$ 1,2 bilhões na Eldorado Brasil Celulose (MS). O empréstimo vence em 2027 e ainda não começou a ser pago.

