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Haddad deve ser chamado para depor em caso de gráfica, diz delegado

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SÃO PAULO. O delegado regional de Combate ao Crime Organizado da PF, Rodrigo de Campos Costa, disse nesta quinta-feira que embora a operação Cifra Oculta, deflagrada no início da manhã tenha sido focada na atividade de gráficas usadas para lavar dinheiro de propina, o ex-prefeito Fernando Haddad deverá ser chamado a prestar depoimento. O delegado chegou a pedir à Justiça que o petista fosse conduzido coercivamente para responder a perguntas sobre o caso, mas a solicitação foi negada. A assessoria de Haddad nega que ele tenha tido conhecimento de qualquer irregularidade.

— A investigação vai apurar a responsabilidade de cada ator envolvido nessa trama. Não sabe se o dinheiro foi gasto nas gráficas ou se teve alguma outra destinação — disse o delegado, que também deve tentar tomar o depoimento do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.

A Operação Cifra Oculta investiga crimes eleitorais e lavagem de dinheiro relacionados à campanha de Haddad, do PT, para prefeitura de São Paulo em 2012. Trinta policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão, expedidos pela 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, nas cidades de São Paulo, São Caetano e Praia Grande, no interior paulista.

Os alvos foram quatro gráficas pertencentes a familiares ou pessoas ligadas ao ex-deputado estadual Francisco Carlos de Souza, do PT. As empresas e pessoas ligadas a elas teriam recebido, em 2013, R$ 2,6 milhões da UTC, empresa de engenharia investigada na Operação Lava-Jato, que celebrou acordo de leniência com o Ministério Público Federal (MPF). Os recursos teriam sido usados para pagar dívidas de campanha.

Os investigadores não têm indícios de que o ex-prefeito tenha participado de negociações envolvendo a contribuição financeira. No entanto, como sua candidatura foi beneficiada pela doação ilegal, ele será chamado a dar explicações. Além de Haddad, a vice-candidata na chapa de 2012, Nádia Campeão (PCdoB), e o tesoureiro da campanha, Francisco Macena, também foram alvo de pedido de condução coercitiva, iniciativas que foram negadas pela Justiça.

“Tem-se que o candidato cujas contas poderiam ensejar, em tese, a prática do delito eleitoral em análise, Fernando Haddad, de há muito já teve ciência da existência deste inquérito, a cujos autos, inclusive, teve acesso pleno”, escreveu o juiz da 1ª Zona Eleitoral da Capital, Márcio Antonio Boscaro, ao justificar o não atendimento ao pedido de condução coercitiva do petista.

A Polícia Federal pediu a prisão de três investigados relacionados às gráficas alvo da operação, mas os pedidos também foram indeferidos pela Justiça Eleitoral.

Em depoimento à Justiça Federal em Curitiba, em junho de 2016, os executivos da UTC Ricardo Pessoa e Walter Pinheiro Santana disseram ter realizados pagamentos para uma gráfica indicada pelo então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, com o intuito de quitar dívidas de campanha de Fernando Hadddad à prefeitura municipal.

Pessoa disse ter sido esta a única vez em que a UTC realizou pagamentos diretamente a fornecedores de serviços para o PT, a mando de dirigentes do partido. De acordo com os executivos, os valores foram descontados de propina acertada previamente com a legenda, referente a contratos obtidos na Petrobras.

“Foi feito para uma gráfica, não sei o nome, acho que o proprietário esse comigo e ficou acertado. O Vaccari tinha passado o valor e eu acertei com o dono da gráfica. Chicão, o nome dele”, informou em depoimento Walter Santana, em referência ao ex-deputado petista Francisco Carlos de Souza, também conhecido como “Chico Gordo”.

Diretor financeiro da UTC, Pinheiro teve o celular apreendido há dois anos, em operação da Lava-Jato. Em sua agenda a Polícia Federal localizou a referência ao telefone do ex-deputado com a inscrição “Chicão JVN”, uma referência às iniciais de João Vaccari, confirmada pelo executivo em depoimento à Justiça.

De acordo com os delatores, os pagamentos da UTC à gráfica foram operacionalizados pelo doleiro Alberto Youssef, também colaborador da Lava-Jato, que passou três anos preso e atualmente cumpre pena em regime aberto, com uso de tornozeleira eletrônica.

O doleiro contou à polícia ter atendido à UTC e realizado o pagamento em forma parcelada, durante o ano de 2013, por meio de dinheiro em espécie e transferências bancárias por meio de suas empresas de fachada. Os destinatários são os alvos da operação desta quinta.

Perguntado sobre a demora para deflagração da operação, já que a colaboração da UTC foi homologada há quase dois anos, o delegado Rodrigo de Campos Costa respondeu:

— A investigação, às vezes, não é no tempo que a gente espera. Costuma demorar — afirmou.

Os investigados responderão por crimes de falsidade ideológica na prestação de contas à Justiça Eleitoral, om penas de até 10 anos de prisão e multa.

A campanha de Haddad negou qualquer irregularidade.

“Com relação a Operação Cifras Ocultas, deflagrada hoje de manhã pela Polícia Federal, o ex-prefeito Fernando Haddad, por sua assessoria, informa que a gráfica citada, de propriedade do ex-deputado Francisco Carlos de Souza, prestou apenas pequenos serviços devidamente pagos pela campanha e registrados no TRE.

A UTC teve seus interesses contrariados no início da gestão Haddad na Prefeitura, com o cancelamento das obras do túnel da avenida Roberto Marinho, da qual fazia parte junto com outras empreiteiras igualmente envolvidas na Lava-Jato. O executivo da UTC, Ricardo Pessoa, era dos mais inconformados com a decisão.

O propalado repasse de R$ 2,6 milhões, se ocorreu, não tem nada a ver com a campanha de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo em 2012, até porque seria contraditório uma empresa que teve seus interesses prejudicados pela administração, saldar uma dívida de campanha deste administrador”, diz nota enviada pela assessoria do ex-prefeito de São Paulo.

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