SÃO PAULO. Chefe de gabinete pessoal da Presidência da República durante o governo Lula (2003-2010), Gilberto Carvalho disse nesta terça-feira em depoimento ao juiz da 13ª Vara Federal em Curitiba, Sérgio Moro, que cabia ao PT, e não ao presidente Lula, tratar de financiamento de campanhas eleitorais. Arrolado como testemunha de defesa do ex-presidente, ele disse que Lula nunca quis ficar rico.
— Mesmo nas campanhas eleitorais, ele dizia: ‘eu entro com a candidatura, o partido se vira com a parte de arrecadar recursos’. Ele credenciou o partido (a arrecadar recursos), nunca uma pessoa —afirmou.
Carvalho disse acreditar que apesar de ter “muitos defeitos”, Lula nunca se enriqueceu em função do cargo que ocupou:
— Lula tem muitos defeitos, como qualquer ser humano. Agora, tem uma coisa: ele nunca quis ficar rico. Nunca pensou em usar a função dele como presidente para aferir recursos próprios. Isso eu posso afirmar porque acompanhei o dia a dia daqueles oito anos em que estive ali — afirmou Carvalho.
O ex-auxilar de Lula foi ouvido no processo em que o ex-presidente é acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) de solicitar vantagens indevidas à Odebrecht, como um apartamento vizinho ao que mora atualmente, em São Bernardo do Campo (SP), e um prédio que abrigaria o Instituto Lula, em São Paulo.
O apartamento está registrado em nome de um primo de José Carlos Bumlai, Glaucos da Costamarques e, de acordo com os procuradores, seria objeto de contrato fictício de aluguel. A sede do instituto chegou a ser comprada por uma empresa parceira da Odebrecht, mas o ex-presidente desistiu de ficar com o imóvel. Com isso, o imóvel voltou ao patrimônio da empreiteira.
A Lava-Jato localizou diversos registros de comunicação entre Carvalho e executivos da Odebrecht, como o então diretor de relações institucionais da empresa, Alexandrino Alencar, tratando de assuntos que interessavam à empresa. Em seu depoimento, Carvalho relatou ser comum esse tipo de comunicação, na medida em que se tratava de uma forma de adiantar ao então presidente assuntos a serem tratados em audiência futura.
— Era muito comum, até para ajudar na eficiência de reuniões, a gente buscava do demandante qual era o assunto a ser tratado e também informar ao presidente com alguma antecedência qual era o assunto a ser tratado — disse Carvalho.
Perguntado sobre mais detalhes da prática, o petista explicou:
— Até por conta dessa prática de saber do que se tratava antes, era muito comum dr. Emílio trazer um papel já com as propostas. Eram 10, 12 propostas, muitas vezes. Eram todas questões ligadas à economia nacional, expansão das empresas, mercado africano, mercado latinoamericano, as questões próprias do desenvolvimento. Nunca vi nenhuma pauta que não fosse essa — afirmou.
O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, perguntou a Carvalho se alguma vez presenciou o recebimento de qualquer vantagem indevida a Lula.
— No nosso governo não havia clima para nenhum picareta que fosse chegasse e fizesse qualquer tipo de oferta. Havia uma regra entre nós muito forte nesse sentido — disse.

