BRASÍLIA — A última sessão do ano no Supremo Tribunal Federal (STF), marcada para discutir recursos de investigados na Lava-Jato, foi marcada por um desabafo do ministro Luís Roberto Barroso com referências às investigações que envolvem o presidente Michel Temer. Ele não citou nomes, mas citou o famoso áudio em que Temer, após ouvir relatos do empresário Joesley Batista sobre pagamento de propina e a boa relação que tentava manter com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, diz: "Tem que manter isso aí, viu".
— Há diferentes de formas de ver a vida e todas merecem consideração e respeito. Eu gostaria de dizer que eu ouvi o áudio "Tem que manter isso aí, viu". Eu quero dizer que eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, eu vi a corridinha na televisão. Eu li o depoimento de Youssef. Eu li o depoimento de Funaro — afirmou Barroso.
A corridinha que ele menciona é uma referência ao ex-deputado e ex-assessor presidencial Rodrigo Rocha Loures, apontado pelo Ministério Público Federal como intermediária de propina paga pela JBS de Joesley para Temer. Foi Rocha Loures quem pegou uma mala com R$ 500 mil. Há três inquéritos abertos contra Temer com base na delação dos executivos da empresa, mas dois estão parados porque não tiveram aval da Câmara. O terceiro, que ainda está ativo, é relatado por Barroso e diz respeito a possíveis irregularidades no decreto presidencial dos portos.
— Portanto nós vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da corrupção que se espalhou de alto a baixo sem cerimônia. Um país em que o modo de fazer política e negócios funciona assim. O agente político relevante escolhe o diretor da estatal ou ministro com cotas de arrecadação. E o diretor da estatal contrata em licitação fraudada a empresa que vai superfaturar a obra ou o contrato público para depois distribuir dinheiros — acrescentou Barroso.
Segundo ele, não importa o destino do dinheiro desviado.
— Aí não faz diferença se foi para o bolso ou se foi para a campanha, porque o problema não é para onde vai de onde vem. É a cultura de desonestidade que se cria de alto a baixo com maus exemplos em que todo mundo quer levar vantagem, todo mundo quer passar os outros para trás, todo mundo quer conseguir o seu, sem mencionar as propinas para financiamento, tudo documentado.
O desabafo de Barroso ocorreu depois de os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes criticarem investigações mal-feitas.
— Eu não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas, e nós temos o dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, de ensinar as novas gerações de que vale a pena fazer honesto, sem punitivismo, sem vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos têm imunidade. Porque não têm. Tem que tratar o menino pego com 100 gramas de maconha da mesma forma que se trata quem desvia milhões de reais — afirmou Barroso.

