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Dorrit Harazim vence mais antigo prêmio internacional de jornalismo

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SÃO PAULO — A jornalista Dorrit Harazim, colunista do GLOBO, foi anunciada nesta sexta-feira como uma das vencedoras do prêmio Maria Moors Cabot, a mais antiga premiação internacional de jornalismo. No comunicado sobre a premiação, Dorrit é descrita como uma “talentosa contadora de histórias” responsável por “grandes contribuições ao jornalismo nas Américas”. A cerimônia de entrega do prêmio, concedida pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, está marcada para 10 de outubro em Nova York.

Em mais de 50 anos de profissão, a jornalista participou de coberturas importantes como o golpe de estado ocorrido no Chile em 11 de setembro de 1973, o ataque terrorista às torres gêmeas nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2011, as guerras do Vietnã e do Camboja, quatro eleições presidenciais americanas e as nove últimas Olimpíadas. Dorrit ainda participou da criação das revistas “Veja”, em 1968, e “Piauí”, em 2006.

— Para mim, receber o prêmio de jornalismo internacional mais antigo do mundo é duplamente saboroso: afinal, eu existo há meros cinco anos a menos do que ele... — diz Dorrit.

Como exemplo da “qualidade superior” das histórias, colunas e documentários de Dorrit, o comitê de premiação citou dois trabalhos de fôlego da jornalista, o documentário “Passageiros”, que, nas palavras da própria Dorrit, retrata a “migração interna brasileira que sucedeu à da geração do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, que, como outros tantos retirantes, saiu do nordeste para São Paulo nos anos 1950. Rodado nos anos 2000, o vídeo mostra o vai-e-vem ininterrupto entre Piauí e São Paulo.

Outra reportagem lembrada pelos julgadores do Maria Moors Cabot foi publicada em 1996 na revista Veja, como lembra a própria jornalista:

— Foi um mergulho bastante profundo e inédito no dia a dia carcerário feminino, até então de pouco interesse para o jornalismo nacional, mais focado em rebeliões ou fugas espetaculares de prisões masculinas. Obtive autorização para permanecer trancada uma semana com as presidiárias do Talavera Bruce, à época o maior presidio feminino do país, nas mesmas celas, seguindo a mesma rotina, dia e noite, sem sair. Depois de adquirir a confiança das chefas das várias facções, a fotógrafa Nair Benedicto pode se juntar a mim e conseguimos traçar um painel inovador sobre as características de ser mulher e bandida no sistema carcerário brasileiro.

Além de Dorrit, outros três jornalistas ganharam o prêmio Maria Moors Cabot neste ano: os norte-americanos Nick Miroff, que tem feito reportagens sobre temas como violência e imigração, Mimi Whitefield, que cobriu carteis de narcotraficantes e as transformações sofridas por Cuba, e o argentino Martin Caparrós, que recebeu elogios de Dorrit por causa de seu último livro, intitulado “A Fome”. Caparrós viajou o mundo para tentar entender, a partir do contato com pessoas ricas e muito pobres, como e porque a fome ainda existe no mundo de hoje:

— O livro é de um escopo assustador, já pelas suas mais de 700 páginas... O tema incomoda e poucos jornalistas tiveram a coragem de investigar a questão de forma tão inclemente. Caparrós já era um jornalista multipremiado, mas com esse mergulho na fome mundial ele ultrapassou de longe o propósito central do Maria Moors Cabot de incentivar um jornalismo voltado para uma maior compreensão interamericana.

Desde 1938, o prêmio Maria Moors Cabot honra jornalistas do hemisfério ocidental pela excelência em sua carreira e por reportagem que contribuem para o entendimento da América Latina. Na edição desta ano, o júri publicou uma declaração condenando as “condições brutais para jornalistas que trabalham no México”, pedindo fim à impunidade dos assassinos de jornalistas naquele país. O júri planeja destacar os mais de 145 casos de assassinato, desaparecimento e tentativa de homicício de jornalistas desde o ano 2000 na cerimônia de entrega de prêmios deste ano. Ao lado do Afeganistão e da Somália, o México é atualmente um dos “lugares mais fatais para praticar o jornalismo, de acordo com o Comitê para Proteção de Jornalistas”, diz o comunicado.

— Temas como violência e os descaminhos das políticas de migração no continente nunca foram fáceis de cobrir, mas de uns anos para cá estão deixando um impiedoso rastro de jornalistas mortos pelo caminho. O Maria Moors Cabot tem larga tradição de valorizar profissionais engajados nem temas tão cruciais — afirma Dorrit.

Em 2015, Dorrit havia se tornado a primeira jornalista brasileira a vencer a 3ª edição do Prêmio Gabriel García Márquez de Jornalismo na categoria Excelência. Na época, o Conselho Reitor da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano (FNPI) destacou "a grande versatilidade" da jornalista e considerou Dorrit como "uma glória do jornalismo brasileiro", além de elogiar o estilo de "jornalismo narrativo de longo suspiro reconhecido tanto no Brasil como na América Latina".

O reconhecimento à excelência “é concedido anualmente para um jornalista de reconhecida independência, integridade e compromisso com os ideais de serviço público de jornalismo, que merece ser destacado como exemplo pelo conjunto da sua trajetória e aporte excepcional para a procura da verdade e do avanço do jornalismo”.

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