RIO - Quando foi preso pela Polícia Federal (PF) no dia 1º de julho na cidade Sorriso, em Mato Grosso, o traficante Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, tinha no bolso uma nota de R$ 5, outra de R$ 2 e moedas que totalizavam cerca de R$ 10. Estava de bermuda, camisa polo e chinelos, sem nenhuma escolta, em uma padaria onde foi comprar pão. Os poucos trocados no bolso e a rotina banal não davam sinais de que se tratava do bandido considerado o maior traficante da América Latina, dono de um patrimônio avaliado em pelo menos US$ 100 milhões (R$ 325 milhões).
Os policiais federais da unidade central de combate às drogas do país acreditam que o estilo de vida dissimulado tenha contribuído para o criminoso passar duas décadas foragido. E a fórmula pode estar sendo seguida por outros grandes traficantes na mira da polícia. Depois da prisão de Cabeça Branca, há seis nomes no topo da lista de procurados pela PF — gente um degrau abaixo do homem preso na padaria, o mas importante na hierarquia do crime brasileiro.
Segundo policiais federais lotados na Coordenação-Geral de Prevenção a Entorpecentes (CGPRE), a unidade central de combate às drogas da PF no país, na lista atual de procurados, seis nomes aparecem em destaque: o libanês Joseph Nouheddine Nasrallah e os brasileiros Jorge Luís da Silva, Álvaro Daniel Roberto, João Aparecido Ferraz Neto, Adalberto Pagliuca Filho e Marcelo Fernando Pinheiro Veiga. Os seis são considerados criminosos de um nível inferior ao alcançado por Cabeça Branca, mas que continuam em atividade.
O mais novo entre os procurados é Marcelo Fernando Pinheiro Veiga, o Marcelo Piloto. Aos 42 anos, é um velho conhecido da Polícia Civil carioca. Apontado como chefe do tráfico em favelas comandadas pelo Comando Vermelho no Estado do Rio, entre elas a de Manguinhos, na Zona Norte da capital, ele pode estar escondido na região da fronteira com o Paraguai. Piloto fugiu da prisão em 2007 e, cinco anos depois, em julho de 2012, foi um dos 20 traficantes responsáveis pela invasão da 25ª DP (Engenho Novo) para resgatar o também traficante Diego de Souza Feitoza, o DG.
Considerado violento e alvo de mais de 20 mandados de prisão expedidos pela Justiça, Piloto teria crescido na hierarquia do crime. Policiais federais acreditam que o bandido tornou-se “matuto”, um negociador de drogas, e não um mero traficante de morro, e tem sido o responsável pelo envio de cocaína, maconha e crack para favelas cariocas, além de aparecer hoje como fornecedor de armas e munição para comparsas do crime em território fluminense.
Outro foragido é Álvaro Daniel Roberto. Ele fugiu da prisão em 2014, depois de ser preso acusado de comandar um núcleo que enviava cocaína para a Europa usando rotas que partiam do Paraguai, Bolívia e Peru. Foi preso e denunciado junto com mais 20 pessoas acusadas de tráfico internacional e associação para o financiamento ao tráfico. O grupo atuava em Juiz de Fora, em Minas Gerais, com ramificações em outros estados. Álvaro controlava o tráfico a partir de São Paulo.
Único estrangeiro na lista de mais procurados pela Polícia Federal no país, o traficante libanês Joseph Nour Eddine Nasrallah, o Sheik, chegou a ser preso pela Polícia Federal em 2007, mas escapou. Condenado a dez anos e oito meses de prisão, fugiu em fevereiro deste ano, depois de conseguir progressão do regime fechado para o semiaberto. A Justiça Federal decretou a prisão dele novamente, e o libanês foi capturado na Operação Kolibra, da Polícia Federal, acusado de ser chefe de uma quadrilha flagrada com três toneladas de drogas que tentava enviar para a Europa.
Na época de sua prisão, Sheik ficou famoso por estar construindo uma mansão luxuosa na cidade de Valinhos, em São Paulo, onde havia até uma banheira com detalhes em ouro. O móvel foi avaliado na época em R$ 60 mil. A mansão de três mil metros quadrados, dentro de um condomínio de luxo, foi avaliada em cerca de R$ 40 milhões.
De acordo com a Polícia Federal, Sheik era um dos líderes de uma quadrilha especializada em tráfico internacional de drogas e lavagem de capitais, cuja principal atividade era a remessa de cocaína produzida na América do Sul para a Europa, Ásia e África. Cinco anos antes, a PF havia prendido Joseph a pedido da Polícia Federal alemã. Já havia a suspeita da ligação dele com o tráfico internacional de drogas.
O jornalista e escritor Allan Abreu, que estuda o tráfico internacional de drogas, descreve Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, como um dos mais importantes traficantes brasileiros presos pela Polícia Federal nos últimos anos. Allan acredita que Cabeça Branca criou uma multinacional do tráfico na fronteira, associando-se a outros criminosos na região entre o Brasil e o Paraguai. Em seu livro “Cocaína, a rota caipira”, lançado em maio deste ano, no qual traça um profundo e detalhado perfil do crime organizado estruturado no país a partir de cidades do interior do Brasil, Allan dedica um capítulo inteiro ao criminoso.
— Prender Cabeça Branca sempre foi um desafio para a Polícia Federal. Ele viveu muito tempo escondido em fazendas no Paraguai, protegido por forte aparato de segurança e pela corrupção de policiais paraguaios. Tornou-se um broker do narcotráfico, um grande empresário do narcotráfico, um grande negociante do pó. Nunca se aproximava da droga que vendia porque sabia dos riscos que isso poderia representar — detalha Allan.
A Polícia Federal disponibiliza o telefone (61) 2024-8300 e o e-mail

