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CPI da JBS: ex-presidente da Caixa diz que não houve 'pareceres encomendados'

BRASÍLIA — Em depoimento na , o ex-presidente da Econômica Federal (CEF) disse que nunca houve achaque no banco ou para a liberação de empréstimos fraudulentos. Segundo Hereda, irregularidades envolvendo funcionários da instituição financeira aconteciam da "porta para fora", ou seja, envolviam negociações diretas entre eles e os empresários interessados. Seria o caso, por exemplo, de alguém "cobrar pedágio" para que o processo pudesse começar a ser analisado no banco. Mas, uma vez iniciado esse processo, Hereda disse que as regras eram seguidas com rigor.

Há vários processos na Justiça para investigar desvios de recursos públicos com a eventual participação de dois ex-vice-presidentes do banco: Geddel Vieira Lima, que está preso atualmente e chegou a ser ministro no governo do presidente Michel Temer, e Fábio Cleto, que se tornou delator e passou a colaborar coma Justiça. Hereda negou ter qualquer responsabilidade sobre o que eles fizeram. Também disse não acreditar que um servidor da Caixa colocaria seu emprego estável e aposentadoria em risco para elaborar um parecer encomendado.

— Uma coisa é alguém cobrar pedágio na porta, sentar em cima do processo e não deixar andar. Outra coisa é esse processo ser fraudulento. Ele pode até segurar processo. Mas depois que botou a operação para rodar dentro da Caixa, ela só sai dentro da norma. Então não acredito em processo fraudulento dentro da Caixa. É isso que a gente não entende. A Caixa é um banco. E para rodar o processo lá dentro, só roda de acordo com as regras. Não tem processo sem ter risco, sem ter jurídico, sem ter área de precificação e área de negócio. São pareceres em cima de pareceres. Eu posso estar errado, mas eu não acredito que dentro desse processo tenha algum tipo de fraude. Também não acho que a Caixa teve prejuízo coma JBS, porque hoje todas as contratações estão em dia ou foram liquidadas — disse Hereda, que foi presidente da Caixa entre 2011 e 2015.

Ele ironizou o trabalho de Geddel, que foi vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa entre 2011 e 2013, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, e teria recebido propina de contratos do banco.

— Geddel inclusive era uma pessoa que trabalhava pouco. Chegava na segunda, tinha reunião na terça, na quarta atendia alguns deputados e, ó, ia embora. Eu sinceramente fiquei surpreso. Eu não tinha, não imaginava, sinceramente, que na área do Geddel pudesse ter acontecido alguma coisa, pelo desinteresse claro pela atividade dele - disse Hereda, acrescentando: - Vou confessar uma coisa: eu preferia que ele fosse o mínimo possível para a Caixa. Os senhores são muito mais experientes que eu nessa coisa de relação política. O senhor me perguntar se eu tinha poder, como presidente da Caixa, de tirar Geddel de lá de dentro, por favor! Vamos ser racionais Eu não tinha poder de tirar Geddel.

Em relação a Cleto, Hereda afirmou que fez o possível para que tudo ocorresse dentro da legalidade. Ele disse que desconfiava de todas as indicações políticas feitas no banco. Em sua delação, Cleto contou que atuava sob orientação do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Entre outras coisas, repassava informações sobre processos e, quando necessário, segurava votos. Hereda, porém, disse que nunca recebeu uma reclamação nesse sentido.

— No primeiro dia, eu o chamei, tive uma conversa boa com ele e disse: não mexa na área do Fundo de Garantia, tem gente aqui que tem 20, 30 anos cuidando disso, então não quero que mexa em nenhum superintendente abaixo de você. À tarde, ele retirou três superintendentes. Eu levei para o Conselho e mandei voltar os três superintendentes — disse Hereda à CPI da JBS.

Ele argumentou que todos os cinco maiores bancos brasileiros emprestaram dinheiro à JBS ou à J&F, seu grupo controlador. Segundo ele, a Caixa deve ser o quarto ou quinto banco mais exposto à JBS, ou seja, a empresa deve mais a outras três ou quatro instituições financeiras do que ao banco estatal. Disse também que ele nunca discutiu uma operação da Caixa com os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da J&F e da JBS.

Hereda afirmou que os empréstimos colocados agora em dúvida foram de conhecimento dele e de outros 50 funcionários da Caixa, que não detectaram problemas. Caso Hereda se opusesse a um empréstimo, o tema seria debatido com os vice-presidentes e o tema seria decidido por maioria de votos. O ex-presidente da Caixa disse também que nunca foi ouvido pela Polícia Federal (PF) e destacou que nenhuma delação até agora envolveu seu nome em irregularidades.

Hereda voltou a dizer que foi pressionado pelo ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), interessado na liberação de um empréstimo da Caixa. Do contrário, poderia ser convocado para depor na CPI da Petrobras. O ex-presidente do banco disse que foram apresentados requerimentos nesse sentido, mas nenhum deles foi aprovado. Negou ainda ter cedido à pressão.

Ao fim da sessão, a CPI aprovou três requerimentos. Um deles prevê a realização de uma reunião conjunta com a CPI do BNDES para ouvir Joesley e Wesley Batista. Outro requerimento aprovado é um convite para o ex-ministro da Justiça e ex-procurador da República Eugênio Aragão prestar depoimento. Por fim, há um requerimento solicitando às secretarias de Fazenda dos estados a relação de incentivos ou benefícios fiscais dados à JBS e à J&F.

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