SÃO PAULO Três meses após se afastar por licença médica da rotina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o corregedor-geral Rodolfo Hickel do Prado, de 57 anos, volta nesta quarta a dar expediente na instituição. Responsável pela denúncia que levou à deflagração da Operação Ouvidos Moucos da Polícia Federal em setembro, Hickel promete seguir investigando supostos desvios nas fundações de apoio à pesquisa da universidade.
Acusado de ser desafeto do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, o corregedor diz não se sentir responsável pelo suicídio do então diretor da UFSC. Cancellier se matou no dia 2 de outubro, 19 dias após ser preso pela PF acusado por Hickel de obstruir a investigação.
— Sigo no meu intuito de apurar todo e qualquer ilícito. Doa a quem doer — diz Hickel.
Sem apresentar novas provas, ele ataca o grupo do reitor que segue na gestão da universidade: — A barbaridade é que as pessoas do Cancellier continuam na administração da UFSC e nas fundações onde está todo o esquema.
Alvo de protestos de alunos e hostilidades de funcionários após a morte do reitor, Hickel entrou em licença médica no dia 24 de outubro . Deveria ter retornado ao trabalho em janeiro, mas requisitou férias. Em entrevista ao GLOBO, ele negou que seu afastamento tenha tido relação com os episódios na UFSC e não quis revelar o motivo da licença. Disse que estava com a pressão arterial alta e passou os últimos meses entre São Paulo e Curitiba fazendo exames médicos. Agora, segundo ele, aguarda o resultado de uma biópsia.
— Meu afastamento não tem nada a ver com os acontecimentos da universidade. É uma questão pessoal. Quem tem que correr é corrupto, não eu — diz Hickel
O corregedor-geral admite ter sido o responsável denunciar para o Ministério Público Federal e à Polícia Federal os supostos desvios nos cursos de administração e física da Educação a Distância do Programa Universidade Aberta na UFSC. E reafirma que Cancellier atuou para impedir a investigação.
Em dezembro de 2016, Hickel afirma ter recebido um telefonema anônimo alertando sobre desvios no EAD. Ao levar ao conhecimento do reitor, teria ouvido que não deveria apurar.
— Ele me disse: “isso pode me causar problema” e pediu para não apurar nada — conta Hickel.
A investigação de fato teria começado em janeiro de 2017 após uma denúncia ter sido protocolada na corregedoria. Cancellier só tomou conhecimento da apuração quando a Capes suspendeu o pagamento de bolsas. Na época, o reitor solicitou ao corregedor acesso aos documentos. Segundo Hickel, a decisão de levar a denúncia para a Polícia Federal e o Ministério Público Federal foi tomada após verificar o volume de provas materiais e tomar depoimentos que indicavam recursos.
— Não dei acesso às provas, porque está dentro das competências apurar as irregularidades. Levei o caso para o MPF e a PF porque sozinho não tinha condições de investigar a quantidade de provas. Havia um crime ali e a operação (Ouvidos Moucos) ocorreu de forma correta - diz.
Hickel, no entanto, também se tornou alvo de uma sindicância da Controladoria-Geral da União (GCU). O órgão apura sua atuação em casos de perseguição a professores e busca saber os motivos de sua licença médica. Acusado de ser desafeto de Cancellier e aliado da antiga reitora Roselane Neckel, ele nega.
O corregedor ainda pode enfrentar um processo na área civil. Familiares do reitor morto estudam responsabilizar judicialmente o corregedor pelas acusações a Cancellier.
— Eu, a Polícia Federal e o Ministério Público não tem nem 000,1% de responsabilidade do reitor. Ele não enfrentou os fatos e fugiu das responsabilidades.
O mandato de Hickel como corregedor-geral segue até maio. Funcionário da Advocacia-Geral da União em Santa Catarina, ele se candidatou para o cargo na UFSC e foi escolhido pela antiga reitora a partir de uma lista tríplice aprovado pelo conselho universitário em 2016. Agora, no entanto, não sabe se tentará concorrer para permanecer no cargo. Tudo dependerá do resultado da eleição para a escolha do novo reitor da UFSC marcada para acontecer em março.
— Se o mesmo grupo (do Cancellier) seguir no comando, eu não me candidato. Será impossível fazer meu trabalho e custará a minha saúde.

