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Cleto não reclamou de valor de propina porque queria ‘valorizar currículo’ no serviço público

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BRASÍLIA — Em sua delação premiada, o ex-vice-presidente da Econômica Federal (CEF) disse que a maior parte da propina ia para o ex-presidente da Câmara (PMDB-RJ). Cleto ficava só com 4%. Nesta quinta-feira, questionado pelo juiz federal se achava essa divisão justa, ele disse que nunca fez esse questionamento. Seu objetivo, afirmou, era passar quatro anos no banco público para valorizar seu currículo e então voltar ao setor privado, onde aí sim poderia ganhar muito dinheiro.

Cleto disse que, segundo informado por Lúcio Funaro, apontado como operador do PMDB em esquemas de corrupção, 80% iam para Cunha, 12% para Funaro, 4% para ele, e 4% para Alexandre Margotto. O dinheiro era pago por empresários interessados em obter liberação de crédito da Caixa ou do Fundo de Investimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FI-FGTS), administrado pelo banco. Todos eles, mais o ex-ministro Henrique Alves, são réus em processo que investiga essas irregularidades.

— Eu nunca fiz esse questionamento. Porque meu objetivo era passar quatro anos na Caixa Econômica, valorizar meu currículo, sair de lá e voltar para o mercado privado, onde eu sempre tinha ganho bastante dinheiro em grandes instituições. Eu sempre ganhava bônus bastante agressivos. Eu sabia que o lugar para ganhar dinheiro com consciência limpa seria no mercado privado. O mercado público era uma forma de valorizar o currículo e depois voltar para o mercado, como fizeram vários profissionais e ex-diretores do Banco Central. O mercado público é uma escola maravilhosa, você entender o funcionamento do tesouro. É um conhecimento fantástico. Meu sonho era passar quatro anos no mercado público e depois voltar para o privado. Aí sim com um pacote de benefícios e bônus bem mais robustos — afirmou Cleto.

— Então, apesar de receber 4% da propina arrecadada, nunca questionei querendo ganhar mais do que isso. Para mim era só uma forma de ganhar um pouquinho mais e manter o padrão de vida alto que eu tinha nos meus anos de mercado. E aí voltar para o mercado e realmente ganhar dinheiro. Então eu não tinha preocupação de questionar ou achar que eu deveria ganhar mais — concluiu.

Questionado como vinha se mantendo atualmente, ele disse que consegue uma renda a partir do aluguel de um imóvel adquirido no interior de São Paulo antes de ter assumido o cargo na Caixa, no qual ficou de 2011 a 2015.

No depoimento, ele confirmou o que disse em sua delação, usada para embasar a denúncia feita pelo Ministério Público Federal (MPF) no processo. Voltou a dizer, por exemplo, que houve pagamento de propina relativa ao projeto do Porto Maravilha, no Rio, financiado parcialmente pelo FI-FGTS. Também afirmou novamente que teve de assinar três vias de uma carta de renúncia no mesmo dia de sua nomeação para vice-presidente da Caixa. Os documentos foram endereçados ao então líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN). Tratava-se de uma medida de segurança, caso Cleto não atendesse as demandas de Cunha.

— Com o tempo foi ficando clara (dentro da Caixa) minha relação com Cunha. E internamente também é conhecido na Caixa quem são as vice-presidências, a que partidos eram ligadas. Esse vínculo meu com Eduardo é uma coisa que passou a ser cada vez mais notória — contou Cleto.

Ele ainda não terminou de prestar depoimento, o qual está ocorrendo por meio de videoconferência. O juiz Vallisney está em Brasília, e Cleto em Campinas (SP). Nesta quinta-feira também será ouvido o empresário Alexandre Margotto. Os outros três réus - Cunha, Funaro e Alves - vão falar apenas na sexta-feira. Cunha e Funaro acompanham os depoimentos desta quinta.

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