Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), conseguiram um marco inédito na ciência latino-americana: o nascimento do primeiro porco clonado da região. O feito integra o projeto do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), que busca desenvolver animais geneticamente modificados para fornecer órgãos destinados a transplantes humanos no Sistema Único de Saúde (SUS).
O animal nasceu no final de março em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba (SP). Segundo os pesquisadores, o avanço representa um passo decisivo para a criação de suínos capazes de gerar órgãos compatíveis com o corpo humano, reduzindo riscos de rejeição imunológica em transplantes.
De acordo com o pesquisador Ernesto Goulart, do Instituto de Biociências da USP, o processo envolveu técnicas avançadas de edição genética. “O xenotransplante envolve uma cadeia de tecnologias complexas, como a modificação genética utilizando a ferramenta CRISPR/Cas9”, explicou. Ele destacou ainda que os genes foram alterados para aumentar a compatibilidade com o organismo humano e reduzir a rejeição dos órgãos.
O projeto também prevê a criação de um plantel estável de suínos clonados em instalações de alta biossegurança, localizadas na USP e no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). “Essas instalações têm altíssimo controle sanitário porque os órgãos serão um produto médico”, afirmou Goulart, reforçando a necessidade de evitar qualquer risco de contaminação por patógenos.
A expectativa dos cientistas é que, no futuro, órgãos de porcos clonados possam atender grande parte da demanda do SUS por transplantes, especialmente de rins, coração, córnea e pele. “Se o xenotransplante se tornar realidade e o Brasil não dominar essa tecnologia, o sistema de transplantes ficaria vulnerável”, alertou o pesquisador, destacando o caráter estratégico do desenvolvimento científico nacional.



