BRASÍLIA — O advogado , que atuou para a e é acusado de ter feito transferências pela empreiteira no exterior, afirmou em depoimento à que o sistema de propinas da empresa, chamado , foi adulterado. Duran chegou a negociar delação premiada com o Ministério Público Federal () e com o departamento de estado norte-americano, mas não celebrou nenhum acordo. Ele tem cidadania espanhola e conseguiu uma decisão naquele país para não ser extraditado, depois de ter ficado preso por lá com base na . O depoimento à CPI foi feito por videoconferência.
Duran afirma ter identificado modificações após ter seu nome apontado em irregularidades da empresa. Ele diz que extratos foram "adulterados" e "falsificados". Os documentos eram de contas no banco que o grupo tinha em Antígua. O advogado pagou uma perícia na Espanha para sustentar suas acusações.
Entre os dados que o advogado coloca sob suspeita estão extratos anexados pelo ex-procurador-geral Rodrigo Janot na segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. Duran afirma que todos os dados extraídos do sistema deveriam ser colocados sob suspeita. Ele entregou cópia da documentação à CPI, mas pediu que fosse mantido sob sigilo.
— Se tem uma prova de adulteração, todas as provas que saem daquele sistema são viciadas — disse o ex-advogado do grupo.
A Odebrecht informou, por meio de nota, que as atividades de Tacla Duran foram comunicadas pela empresa às autoridades no processo de colaboração com a Justiça.E reafirmou que a empreiteira "vem colaborando com as investigações de forma definitiva", e a "qualidade e eficácia da colaboração da empresa vêm sendo comprovadas".
O principal interesse da CPI, porém, são em acusações feitas por ele sobre o processo de sua negociação frustrada de delação premiada. Duran chegou a receber de procuradores da força-tarefa uma minuta de um acordo, mas diz ter desistido porque lhe imputavam crimes que não cometeu.
— Eu que rejeitei o acordo. Eles queriam criminalizar minha profissão, imputar crimes que não cometi. Mesmo sabendo o que eu ia sofrer, resolvi não assinar — afirmou.
Duran contou ter contratado em Curitiba o advogado Carlos Zucolotto Junior, amigo e padrinho de casamento de Moro, para negociar a delação. Zucolotto teria oferecido redução da multa que Duran teria de pagar: de US$ 15 milhões, para US$ 5 milhões. Os honorários seriam de US$ 5 milhões, pagos "por fora".
Além de Moro, Zuccoloto já defendeu o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima em processos judiciais. E Rosângela Moro, mulher de Sergio Moro, já foi sócia do escritório de Zucolotto.
O juiz federal, em nota, já confirmou a amizade com o advogado, a quem considera sério e competente. Afirmou ainda que a acusação contra Zucolotto é falsa. E disse que Tacla Duran é foragido da Justiça e não merece crédito.
A força-tarefa da Lava-Jato também repudiou as afirmações e informou que a negociação de delação premiada de Duran havia sido encerrada por ser incompatível com os requisitos legais — e não pelos motivos alegados por ele.
Duran se disse pressionado tanto pelos procuradores quanto pelo advogado a celebrar o acordo. Afirmou ainda que o MP o atrapalhou a celebrar um acordo de colaboração nos Estados Unidos por ter vazado um depoimento de outra pessoa envolvida com a Odebrecht no mesmo dia em que tinha reunião naquele país. O vazamento colocou em xeque algumas das informações prestadas por Duran aos norte-americanos, e o acordo não se concretizou.
O advogado afirmou que há "delações à la carte" na Lava-Jato e disse que há pressão de procuradores para que, nos acordos, se busque corroborar linhas de investigação. Sustentou ainda que há a tentativa de influenciar os delatores a envolver políticos. Citou como exemplo que teria ouvido questionamentos do hoje ex-procurador Marcello Miller nessa direção.
— O (ex-)procurador Marcello Miller começou a dizer uma lista de parlamentares, perguntando: 'Qual conhece? Qual pode entregar? De qual pode falar?' — disse Duran.
Duran fez ainda outra acusação a Miller. Disse que enquanto negociava a delação foi chamado para uma reunião pela Odebrecht e contou aos procuradores com quem negociava. Afirmou ter ouvido de Miller a frase "então vai lá e grava".
Diante da resistência dele para realizar a gravação, o então coordenador do grupo de trabalho da Lava-Jato na Procuradoria-Geral da República, Sérgio Bruno, sugeriu que ele apenas "contasse" tudo que ouvisse na reunião.
Em nota, Marcello Miller nega ter orientado Tecla Duran "a gravar conversas com quem quer que seja" e que tenha apresentado lista de políticos sobre as quais o advogado deveria pronunciar-se.
"Rodrigo Tacla Durán é, antes de tudo, um criminoso, que, a pretexto de exercer a profissão de advogado, delinquiu grave e repetidamente. É também um fugitivo da Justiça brasileira. Mais que isso, é um enganador: enganou a Operação Lava-Jato com argumentos artificiosos para deixar o país; e agora tenta enganar o Congresso Nacional com estórias estapafúrdias, inclusive a meu respeito", diz em nota.

