BRASÍLIA — Em depoimento à Polícia Federal no dia 10 de outubro, o ex-procurador Marcello Miller confirmou ter participado de cinco a dez reuniões com executivos da JBS antes de ser exonerado do Ministério Público Federal. Miller disse também que chegou a analisar um dos documentos que integrava as tratativas do grupo "para não ser descortês" e que só fez "apontamento linguísticos e gramaticais sobre documento”.
O ex-procurador, que é um dos envolvidos no episódio que levou ao cancelamento da delação dos executivos da JBS, depôs no inquérito aberto a pedido da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Carmen Lúcia. A investigação apura citação de ministros da corte em uma gravação de Joesley Batista, um dos donos do grupo, e do ex-executivo da empresa Ricardo Saud. O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo também foi ouvido pela PF.
O depoimento foi citado, nesta quarta-feira, .
Miller trabalhou por cerca de três meses Trench Rossi Watanabe, escritório de advocacia que atuou no acordo de leniência da J&F, controladora da JBS. O ex-procurador é acusado de ter feito jogo duplo e atuado para a empresa antes de se desligar do Ministério Público Federal. Ele chegou a ser um dos principais assessores do ex-procurador geral, Rodrigo Janot, na Lava Jato, fechando acordos de delação como o do ex-senador Delcídio do Amaral.
No depoimento, Miller disse quando conheceu Saud, em março, o executivo mostrou a ele um documento que aparentava ser um anexo de colaboração premiada e que “para não ser descortês” atendeu ao pedido de analisá-lo. Afirmou, porém, que se limitou a fazer "apontamento linguísticos e gramaticais sobre documento”.
Disse que acredita que tenha participado entre cinco e dez reuniões no escritório da JBS entre o período em que pediu exoneração, em 23 de fevereiro, até ela ser efetivada, em 5 de abril. Negou ter tratado com advogados do grupo sobre documentos apresentados nos acordos de delação e de leniência e enfatizou que os assuntos giravam em torno da sobrevivência da empresa.
Segundo Miller, ele começou a participar reuniões na JBS com Joesley, Saud e Francisco de Assis “para tratativas do processo de compliance que os executivos da JBS tinha interesse no exterior”.
O ex-procurador contou ainda que o tanto Assis quanto Joesley o chamaram para trabalhar na JBS, mas que ele negou argumentando que as tratativas com o escritório Trench Rossi Watanabe já estavam avançadas. "Restou claro para o declarante (Miller) que haveria uma intenção da JBS em ter o trabalho de declarante à sua disposição, ainda que indireta por meio do escritório".
Miller relatou que tomou a decisão de deixar o Ministério Público depois que recebeu o convite para integrar o Trench Rossi Watanabe. Disse ainda que foi apresentado aos executivos da JBS pela advogada Fernanda Tórtima no escritório dela, no Rio de Janeiro.
O encontro, segundo o ex-procurador, aconteceu em meados de fevereiro, dias antes de pedir a exoneração, e se deu com Assis, que era o responsável pela área jurídica.

