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Tragédia em Santa Maria: cinco anos do incêndio na boate Kiss

Por Portal Do Holanda

27/01/2018 6h26 — em
Brasil


Foto: Edilson Dantas

SANTA MARIA (RS) — Cinco anos depois do incêndio que matou 242 pessoas na boate Kiss, os pais das vítimas sofrem com a revolta pela falta de punição aos responsáveis pelo episódio. Paralelamente, ainda enfrentam resistência de parte da população de Santa Maria (RS), que se diz cansada em ver o nome da cidade do interior gaúcho, de 250 mil habitantes, associado à tragédia.

Polo universitário, o município, que abriga a Universidade Federal de Santa Maria, sempre foi conhecido pelas suas festas, bares e casas noturnas. Passada meia década da maior da tragédia de sua história, a cidade ainda não superou totalmente as marcas daquela noite, apesar de a vida noturna ter recuperado parte de sua intensidade.

Fechado há cinco anos, o local ainda guarda as marcas da madrugada de horror de 27 de janeiro de 2013. Nas paredes internas, há marcas de fogo. Parte do piso de madeira está podre e tem buracos. Na fachada, a letra “K” do letreiro principal caiu há cerca de um ano. Uma das mesas da área vip, porém, ainda guarda o nome de um frequentador.

— Se tivesse uma punição exemplar não iria nos complementar, porque perdemos nossos filhos. Mas, ao menos, teríamos uma noção de Justiça. A gente iria pensar que estamos sendo respeitados. Agora temos a sensação que as pessoas fazem o que querem. Perdemos a nossa cidadania — afirma Sérgio Silva, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria.

O processo se arrasta na Justiça há cinco anos. Em dezembro, o 1º Grupo Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul livrou os quatro réus de irem a júri popular. O placar terminou empatado em 4 a 4, o que acabou beneficiando os acusados. Com a decisão, o dolo eventual (quando se assume o risco) foi afastado e o processo voltará para a primeira instância. Os acusados devem ser julgados por outro crime, que não seja com dolo, podendo ser homicídio culposo e incêndio. São réus na ação o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, que se apresentou na noite e acendeu o artefato luminoso que deu origem ao incêndio; o funcionário da banda Luciano Bonilha Leão, que comprou o sinalizador; e os sócios da boate Kiss, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann.

Os familiares têm queixas ao trabalho do Ministério Público, que denunciou apenas os quatro réus, sendo que o inquérito policial havia apontado o indiciamento de 36 pessoas.

— O Ministério Público não fez o trabalho dele — afirma Sérgio.

Como reação, promotores chegaram a processar pais por calúnia e difamação, o que aumentou a revolta dos familiares. As ações não prosperaram. Além disso, alguns pais contam que sentem nas ruas a animosidade de outros moradores. O próprio presidente da associação das vítimas diz que, uma vez na fila do banco, ouviu “que a cidade precisava andar e que os pais não podiam ficar vivendo só em cima disso”.

O ressentimento ficou explícito com o movimento realizado por comerciantes para retirar uma barraca instalada no centro da cidade com um painel de fotos dos 242 mortos, onde toda quarta-feira pais fazem uma vigília. Por insistência deles, a barraca acabou mantida no local.

Um grupo de comerciantes que se reúne diariamente em um café do centro de Santa Maria não se acanha em apontar que a tragédia “travou a economia da cidade”. Acrescentam ainda que a obtenção de alvará se tornou mais burocrática, o que inviabiliza os negócios.

— Quando viajo e chego num hotel nem falo que sou de Santa Maria porque senão a pessoa já sai falando da Kiss. Agora, digo que sou de Porto Alegre — conta a dona do estabelecimento.

Como forma de tentar apaziguar os ânimos na cidade, a prefeitura aceitou desapropriar o prédio onde funcionava a Kiss e construir um memorial. A expectativa é que a boate seja demolida em abril.

Enquanto isso, os sócios da Kiss deixaram Santa Maria. Mauro Hoffmann vive em uma praia de Santa Catarina, segundo amigos, e Elissandro Spohr se mudou para Porto Alegre. Os dois integrantes da banda continuam vivendo na cidade.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul diz que ainda recorre da decisão do Tribunal de Justiça que livrou os réus de homicídio doloso e defende o trabalho de investigação feito.

—Responsáveis pelo homicídio nós entendemos que foram quatro pessoas. Fizemos um trabalho bem mais técnico que a polícia — disse o subprocurador Marcelo Dornelles.

Corpo marcado é memória da tragédia

Mesmo com cicatrizes profundas, o veterinário Gustavo Cadoré considera que teve muita sorte na noite do incêndio da Kiss - Edilson Dantas / Agência O Globo

SANTA MARIA (RS) — Mesmo com cicatrizes profundas no dois braços, perda de movimento do dedo mínimo da mão esquerda e a necessidade de exames rotineiros no pulmão, o veterinário Gustavo Cadore, de 36 anos, considera que teve muita sorte na noite do incêndio da Kiss. Em meio ao calor intenso, à fumaça sufocante e ao pânico dos frequentadores, sair vivo da boate, em Santa Maria, “foi como ganhar na loteria”.

A tragédia, que deixou 242 mortos e 630 sobreviventes, completa hoje cinco anos. Até agora, os apontados como responsáveis pelo incêndio não foram punidos, enquanto familiares e vítimas lutam para superar o trauma e as sequelas daquela noite. Cadore faz parte desse grupo. Ele não pretendia ir à festa na boate. Mas, durante um churrasco no começo da noite, se empolgou e acabou convencido por um amigo que valia dar uma esticada. Tentou ir a uma outra casa noturna, que costumava frequentar, mas o local estava cheio. Acabou optando pela Kiss.

— Eu entrei meia hora antes de pegar fogo.

No curto período na boate, o veterinário conversou com alguns estudantes da Universidade Federal de Santa Maria, onde fazia doutorado e dava algumas aulas. O seu amigo encontrou uma dupla de conhecidos. Os quatro chegaram a dividir doses de vodca. No momento em que o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, acendeu o artefato pirotécnico que deu início ao incêndio, Cadore estava ao lado do palco, bem longe da saída.

— Começou um fogo no teto, mas de início ninguém se apavorou.

Seu amigo tinha ido ao banheiro minutos antes do fogo começar e o veterinário decidiu aguardar para que não se perdessem.

— Pensei: vai dar tempo para sair.

De repente, o fogo começou a aumentar rapidamente. Com a casa lotada, teve início um tumulto. Houve um estrondo e a luz se apagou.

— Com tudo escuro, meu medo era cair no chão e ser pisoteado.

O seu temor acabou se concretizando. Foi pisado nas pernas e no dedo, o mínimo da mão direita que viria a ficar paralisado. Pensou que não conseguiria mais se levantar, mas, depois de cerca de dois minutos, recebeu um chute, o que acabou lhe deslocando para perto de uma das mesas fixas de concreto que havia na boate. Com o apoio das mesas, conseguiu se levantar.

— Quando me levantei, vi que a temperatura estava muito alta. Também tinha muita fumaça. Parecia que eu estava me afogando na fumaça, respirando fogo.

Nesse momento, veio o desespero e Cadore pensou que não conseguiria sobreviver.

— Eu sabia que estava em risco. Escutava muito grito, muito barulho de metal caindo do teto, de vidro quebrando.

Mesmo com a situação, se manteve calmo.

— Se eu ficasse nervoso, iria respirar mais e poderia desmaiar.

Ao avistar um raio de luz que passava pelo vão de uma porta, o veterinário acreditou que a sua agonia estava próxima do fim. Mas ao se aproximar descobriu que a porta estava trancada.

— Pensei: vou morrer aqui, perto da saída. Cheguei tão perto e não vou conseguir. Vou decepcionar os meus pais — recorda Cadore, que é filho único.

Já tinha perdidos a esperança, mas olhou para o lado e viu uma outra porta a um metro de distância. Essa estava aberta. O veterinário entrou no empurra-empurra com outras pessoas que tentavam escapar do incêndio. Já na rua, ouviu de um rapaz :

— Está saindo fumaça do seu braço.

Minutos depois, o mesmo rapaz prosseguiu:

— Toda a pele dos seus braços está caindo.

O veterinário não acreditou. Pensou que fosse um pedaço de sua camisa rasgada.

— Mas aí olhei contra a luz, e vi que a pele estava presa só pela palma da mão.

O estado de choque fez com que não se assustasse. Foi levado para o hospital, onde a equipe médica verificou que sua oxigenação estava caindo. Foi necessário colocá-lo em coma induzido e transferi-lo para Porto Alegre. Foram 12 dias inconsciente. A alta veio depois de um mês.

Na volta para casa, o veterinário não conseguia fazer as atividades mais simples.

— Não conseguia tomar água, me alimentar sozinho ou levantar da cama.

Depois disso, foram inúmeras sessões de fisioterapia, cerca de outras dez cirurgias para enxerto nos braços nos anos seguintes. Mesmo assim, Cadore não traz revolta do episódio. Tampouco tem vergonha de expor as cicatrizes.

— Tive muita sorte de conseguir sair. É como ganhar na loteria, eu estava num lugar longe da porta. Até quando caí, eu tive sorte de alguém me chutar e eu conseguir levantar. Para os pais que perderam um filho, deve ser muito pior.

Nem todos os sobreviventes têm a facilidade de Cadore para falar sobre a trágica noite da Kiss. O GLOBO contatou as duas pessoas que passaram mais tempo no hospital depois do incêndio, mas elas não quiseram falar.

— O sobrevivente quer esquecer o que viveu. Por isso, é mais difícil falar — comenta o psicanalista Volnei Dassoler, que coordenou o Acolhe, programa da prefeitura que auxiliou as vítimas.


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O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

ASSUNTOS: boate kiss, incêndio, Santa Maria, Brasil

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