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O que tem Amazonino com Sylvia Kristel nua, a censura ou a minha idade?


Por Raimundo de Holanda

03/08/2022 20h52 — em
Bastidores da Política



Eu tinha 16 anos e ansiava pelos 18. Queria ir ao cinema assistir “Atrás da Porta Verde”. Um filme erótico que enchia os cinemas de gente grande. Depois bombou Emanuelle, com Silvia Kristel, e a estreia em Manaus foi no dia em que completei 18 anos. Hormônios sacudiam meu corpo e esquentavam tudo por baixo. Uma fantasia que sabotou meu sono durante a noite anterior.

Por volta das  7 hs  do dia 11 de novembro procurei a certidão de nascimento que comprovaria a minha idade. Esperei a manhã passar. Testosteronas explodiam e escorriam em suores de meu corpo, até que a tarde chegou como se quisesse se estender para sempre. De tanto olhar o relógio nem percebi o sol se pondo preguiçosamente no horizonte. Um alivio momentâneo.

Tomei banho apressado, vesti a pantalona surrada, a única calça que tinha e enchi os cabelos de brilhantina. Sai de casa e me postei na primeira fila do Cinema Vitória, no Educandos. Era uma época de muito controle. Havia um juiz de menores nas portas dos cinemas. Um senhor de 60 anos me olhou e esticou o braço impedindo minha passagem: “menino, vai pra casa! Essa fita é somente para adulto”.

Sorri confiante. Meti a mão no bolso e apresentei a certidão. “Já completei 18” - disse para ele, mas ele me olhou com uma cara de censura. E foi cruel: “fora daqui. Você não tem 18 anos. Tem cara de 15”. Sai frustrado. A imagem de Sylvia. Kristel semi-nua, que aparecia no cartaz na frente do cinema não saiu da minha cabeça e acabou dentro dos lençóis na mais longa noite de minha vida. Frustração e dor e uma fantasia que se transformou num longo pesadelo.

Depois os anos correram tão rapidamente que quando me dei conta já estava com os cabelos brancos. Só percebi que tinha envelhecido quando fui tomar uma das doses da vacina contra a Covid. Um senhora me conduziu a uma fila de prioridades. A princípio não entendi. Depois percebi que apenas gente de cabelos brancos estavam ali.

A questão do envelhecimento é curiosa, a gente só percebe que envelheceu porque quando não há um respeitoso cuidado das pessoas, há um criminoso preconceito.  É o que acontece com Amazonino Mendes - que, como eu e tantos outros, não  percebeu os anos passarem, porque sua vida, como a minha e de tantos que envelheceram, é como rios que não secam.



Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.