Imagine uma honraria concedida a quem reconhecidamente se destaca no meio político, jurídico ou cultural sendo transformada em simples moeda de troca. Imagine que uma honraria dessas pode ser, lá na frente, revogada porque amigos de então, parceiros, cúmplices (ou que seja o que tenham sido) no presente se tornaram inimigos?
A medalha Ruy Araújo, criada para homenagear homens e mulheres que trabalharam pelo Estado do Amazonas e deixaram um legado para as futuras gerações, foi despida do seu simbolismo, perdendo seu valor histórico e cultural. Por uma razão simples: a ideia de sua criação foi boa, mas os deputados a utilizaram em grande medida para agradar amigos, reverenciar financiadores de campanha ou cabos eleitorais na chefia de executivos municipais.
Com sua finalidade desvirtuada, a medalha Ruy Araújo tornou-se mero adorno sem a sua significância original.
A concessão da medalha ao prefeito de Borba, em 2021 e agora prestes a ser revogada, é só um exemplo de como os parlamentares encaram um instrumento criado por eles para incentivar e premiar os bons empresários, os artistas e os próprios políticos que honram seus mandatos.
A concessão da medalha ao Prefeito de Borba, Simão Peixoto, foi um erro? Claro que sim, como muitas outras homenagens concedidas a quem não merecia, com a diferença de que os parlamentares naquela ocasião já sabiam das malfeitorias do prefeito.
Bastou uma arenga com o presidente da Assembleia Legislativa para que propostas de anular a concessão fosse colocada em pauta. Isso, por si mesmo, demonstra a falta de critério na escolha dos homenageados com a medalha Ruy Araújo. E mais que isso: revela claramente que os parlamentares não sabem o significado da honraria.
As escolhas dos agraciados são feitas nas coxas e nas coxas são aprovadas.
Chegou a hora de a Assembleia Legislativa do Amazonas criar um Conselho para avaliar os candidatos à medalha. A sugestão pode ser do parlamentar, mas a avaliação deveria passar, necessariamente, por um corpo técnico.
Ou vai chegar o dia em que os escolhidos, com alguma vergonha, por mais que se sintam merecedores - deixarão de comparecer a uma solenidade até agora desvirtuada, para recebê-la. E pior, a medalha não será jamais um troféu. Um dia pode ser tirada, arrancada do peito, dependendo do humor de um ou outro parlamentar.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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