Raylene Araújo era atrevida, corajosa, guerreira. Uma voz solitária em uma cidade sitiada pelo crime. Dez dias depois de sua morte, ninguém lembra dela. Afinal, era uma moça pobre, desconhecida, mas que se tornou símbolo de resistência a um poder opressor que se estabeleceu na cidade de Manaus.
Sua morte não foi apenas banal. A crueldade foi tamanha que os criminosos resolveram dilacerar o seu rosto - o recado é que ela não existiu e que não poderia existir outras iguais a ela.
A Polícia, ao apresentar três criminosos, considerou o caso encerrado, mas tudo pelo que Raylene lutou continua - a organização criminosa cobrando taxas de água e luz. Há ainda um declarado toque de recolher na comunidade de Buritis, na Zona Norte de Manaus, onde ela residia com a mãe e um filho.
Não,o caso não está encerrado. Exige uma ação decisiva do Estado, não apenas na Zona Norte, mas em toda a cidade, onde o crime está sendo institucionalizado como poder dominante.
Exagero? Talvez, mas enquanto o Estado responder com medidas paliativas e com bala, exibindo corpos de meninos de 17 e 18 anos mortos em confrontos arranjados, não vai mudar nada.
A esperança é que as mães que vêem seus filhos mortos nessa batalha, cooptados pelo crime, reajam. Sonho muito com a revolução das mulheres. Como disse ontem, só elas podem mudar esse mundo de horror que nos rodeia e nos ameaça.
Quanto a Raylene, por que as mulheres não fazem uma grande homenagem à sua memória e a sua coragem no dia dedicado a elas ?
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As mulheres poderiam mudar o mundo, mas estão num cercadinho…
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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