Thierry Frémaux chega à porta do hotel onde está hospedado, em Ipanema, e corre em direção à praia em frente, para voltar logo depois. Um pouco mais tarde, o diretor-geral do Festival de Cannes, o maior e mais importante certame cinematográfico do planeta, demonstraria desconforto com o calor na cidade às vésperas do verão, a ponto de trocar de camisa durante a sessão de fotos para essa reportagem. Mas estava satisfeito de ter enfrentado o mormaço para cumprir um antigo ritual de viagem.
— Fui tocar na água da praia daqui, uma tradição. Estive pela primeira vez no Rio em 1983, com um grupo de amigos, um dos pontos altos de uma longa viagem numa pequena caminhonete que trouxemos de Barcelona, de barco. Foi um momento muito importante em minha vida, como uma despedida da juventude —explica o francês de 57 anos, que veio promover “Lumière! A aventura começa”. — Voltei a sentir a atmosfera daqueles tempos.
O longa, que chega aos cinemas brasileiros no dia 14, é uma espécie de compêndio dos primeiros filmes feitos pelos irmãos Louis (1862-1954) e Auguste (1864-1948) Lumière, considerados os inventores do cinema. O próprio Frémaux comenta e explica cada um dos 108 curtas de 50 segundos, restaurados com tecnologia 4K. Não há pessoa mais indicada para a função: Frémaux é desde 1990 diretor do Instituto Lumière, em Lyon, criado em 1982 com o objetivo de promover e preservar a obra dos pioneiros franceses.
— Acho importante que um filme como “Lumière! A aventura começa” venha a público neste momento em que o cinema atravessa nova crise — diz ele na entrevista a seguir.
Como o senhor entrou para o Instituto Lumière?
Estou lá desde a fundação, primeiro como voluntário. Algumas semanas antes de sua criação, o diretor Bertrand Tavernier, que assumiria a presidência do órgão, promoveu uma conferência sobre a ideia de se criar uma instituição para proteger o acervo dos Lumière, e eu, que na época trabalhava como jornalista de uma rádio, fui cobrir. Ele falou que precisavam de toda a ajuda possível, e me ofereci para ajudar. Eu era professor de judô, estava trabalhando na minha tese de mestrado em História Contemporânea. Em 1990 fui oficializado como diretor, aos 30 anos. Pouco depois deixei o judô e nunca terminei a tese (risos).
Como estava a saúde do cinema, no início de sua gestão?
Assim como hoje, já se falava sobre a possível morte do cinema. Wim Wenders, Jean-Luc Godard, e até mesmo o crítico Serge Daney, da “Cahiers du Cinéma”, se referiam à atividade com certa melancolia. Na época, isso não era tão óbvio, e no que iria dar, mas havia indícios, como a popularização da TV a cabo. Hoje não se fala exatamente sobre a morte do cinema, mas a atividade enfrenta novos desafios, como os serviços de streaming e a internet. Há uma crise no ar, o que é bom. Acredito que é um bom momento para lançar um filme como “Lumière! A aventura começa”. É preciso voltar à origem para refletir sobre o momento. Se todos os livros desaparecessem, talvez tivéssemos que voltar a Homero, à “Odisseia”, não? Então, temos que voltar aos Lumière, a ser ingênuos e genuínos como eles foram à época da criação do cinematógrafo.
Em que momento esse desejo começou a tomar forma?
A oportunidade surgiu em 2015, nas comemorações dos 120 anos de nascimento do cinema. Começou com um DVD com filmes dos Lumière para serem projetados nas fachadas de museus e em algumas salas. O sucesso foi tão grande que um amigo sugeriu: “Por que não transformá-lo em longa-metragem?”. Costumo fazer há décadas esse tipo de projeção comentada, então, para mim, é uma forma de devolver ao público o que conheço sobre os Lumière, cujo legado é importante para todos que gostam de cinema. É a primeira vez que os filmes são exibidos em salas comerciais, desde a época em que os irmãos ainda estavam vivos. Alguns poucos foram exibidos nos anos 1950 e 60, dentro de homenagens específicas.
Os filmes selecionados para “Lumière!” foram realizados de 1895 a 1905. Por que essa janela de tempo?
Os Lumière não eram os únicos que tentavam criar uma forma de colocar imagens em movimento no fim do século XIX — havia Thomas Edison, nos Estados Unidos, por exemplo. Mas foram os primeiros a resolver todos os problemas da técnica. É por isso que digo que eles foram os últimos inventores. Há também os que defendam que Georges Méliès (1861-1938) tenha sido o primeiro a usar a novidade como prática cinematográfica. Mas os primeiros registros dos Lumière também podem ser considerados cinema, porque já se reconhece neles um estilo. Então foram os últimos inventores e os primeiros diretores. Os filmes de “A aventura começa” foram realizados nos primeiros dez anos de atividade cinematográfica dos irmãos, quando tomaram aquela decisão maluca de enviar cinegrafistas para diversos lugares do mundo, como o México, a Itália, a Turquia.
A vontade de escapar do óbvio das homenagens aos Lumière, que costumam ter sempre os mesmos dois ou três filmes deles, como a famosa chegada de trem a uma estação. Adoro o que abre, o da saída dos operários de uma fábrica de Lyon, que hoje abriga o Instituto, a ideia de a invenção de uma arte — o cinema — começar com a abertura de uma porta. São filmes que são puro cinema. Eles estavam escrevendo o que era aquela nova arte. A técnica inspirando o conteúdo, que é o que sustenta um bom filme até hoje. Também havia o desejo de quebrar alguns mitos, como o de que os Lumière eram documentaristas, e o Méliès era pura ficção. Porque Méliès também fez documentários, e os Lumière manipulavam a realidade. Os irmãos pegavam a realidade e imprimiam na tela; o outro a reinventava. Méliès era Hollywood, Stanley Donen; os Lumière eram Rossellini, Kiarostami, Glauber Rocha.
Não me vejo no meio, mas em ambos os lados. Na verdade, me sinto em posição privilegiada, porque o meu trabalho em Cannes se beneficia do fato de eu ser cinéfilo, de trabalhar com a história do cinema, e vice-versa. Em relação às plataformas digitais, era uma questão que tínhamos que encarar de frente. O cinema já ganhou a guerra, porque sua linguagem está em todos os lugares, inclusive na publicidade. Isso significa que ele ainda é relevante. Acredito que os irmãos Lumière inventaram o cinema três vezes: a arte, a técnica e a experiência coletiva do cinema. Gostei da ideia de fazer a Netflix sentir o cheiro do tapete vermelho em Cannes. E eles gostaram. Mas há ainda de se ensinar às novas gerações que há uma diferença entre assistir a um filme em uma sala de cinema e no computador. Também enfrentei críticas em 2002, quando foram exibidos pela primeira vez, em competição, dois filmes digitais: “A arca russa”, de Aleksandr Sokurv, e “Star wars II: Episódio II — O ataque dos clones”, do George Lucas. Mas foi bom. Cannes é um laboratório. Temos que estar no centro de todos os problemas do cinema, e acho que conversar é melhor do que se fechar a eles. Meu coração está aberto a esse tipo de diálogo.

