SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um garoto surge recortado em meio a camadas sobrepostas de fotografias de paisagens e de um negro profundo. Em outro momento, ele reaparece indo na direção oposta à de outra criança, separados por uma cisão luminosa na imagem. Outros corpos, paisagens, fotos de objetos e cenas cotidianas se misturam entre fragmentos e continuidades. Assim se apresenta "Sobras", última série do artista e designer paulista Geraldo de Barros (1923-1998), exibida pela primeira vez em sua totalidade na exposição "Jogo da Memória", aberta neste sábado (25) na Luciana Brito Galeria, em São Paulo.
A mostra reúne 281 trabalhos fotográficos produzidos entre 1996 e 1998, nos últimos anos de vida do artista, que foi figura central da arte concreta brasileira e cofundador dos grupos Ruptura e Forminform. A exposição resulta de uma parceria entre o Instituto Moreira Salles e o Arquivo Geraldo de Barros, mantido pela filha e também artista Fabiana de Barros, e pelo cineasta Michel Favre, com o objetivo de apresentar o conjunto completo da série.
Fabiana de Barros explica que, nos três últimos anos de vida, Geraldo começou a mexer em todos os negativos que encontrava em casa --de família, de séries desenvolvidas nos anos 1940, de períodos em que morou em Paris e de outros momentos distintos de sua trajetória. Segundo ela, eram imagens guardadas em gavetas, sem destino. O artista decidiu recortar, sobrepor e colar em placas de vidro, criando novos negativos e transformando cenas íntimas em memória coletiva.
Quanto ao título da série, Fabiana conta que o artista repetia insistentemente que devia ser "Sobras", e que ela só passou a compreender seu significado após a morte do pai. Com isso, o título também passou a se referir ao que sobra do conjunto de sua obra, de sua memória e de sua relação com a vida --o que permanece após a morte, além dos recortes e sobreposições das imagens, que por sua vez eram sobras de trabalhos anteriores.
Para Favre, essa operação radical com a própria história origina o "jogo da memória" que dá nome à exposição. "A sobra remete à memória do Geraldo, obviamente", afirma o genro, que também documentou o artista. "A memória nunca é um nada; sempre sobra alguma coisa. E, de certa forma, o jogo da memória é isso: um exercício de ativar relações, de conectar imagens que sobrevivem ao tempo."
Ele ressalta que o jogo proposto por Geraldo atua tanto no plano formal quanto no subjetivo. Ao observar uma imagem, o visitante acaba lembrando de outra, formando pares, grupos e uma espécie de cosmogonia. Favre destaca que esse processo permite transformar o material pessoal e íntimo --imagens da vida e da família do artista-- em algo universal e público.
Favre observa ainda que a última série de Geraldo dialoga com ideias já expostas pelo artista no texto "Tratado da Fotografia", publicado em 1978 por ocasião da Primeira Mostra da Fotografia Latinoamericana Contemporânea, no Museu de Arte Moderna da Cidade do México. Nele, Geraldo traz conceitos-chave para compreender sua obra fotográfica: a defesa da liberdade, da exploração do acaso e do erro na criação artística, além da ideia de que a fotografia de um negativo encontrado e empoeirado pertence a quem dele fizer uso, e não necessariamente a quem o expôs originalmente.
Segundo Favre, essa noção de reapropriação coloca "Sobras" em sintonia com debates recentes sobre autoria e arquivo, evidenciando a importância da série dentro do conjunto da obra do artista. "Se Geraldo de Barros viveu durante a passagem da arte moderna para a arte contemporânea, nas 'Sobras' ele já está na contemporânea", conclui.
Sobras de Geraldo de Barros
Quando: Seg., das 10h às 18h; ter. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 17h. Até 20 de dezembro
Onde: Luciana Brito Galeria
Preço: Grátis

