RIO - O sonho de todo artista é deixar a plateia petrificada. O cantor Vicente Telles até que consegue, em parte, um público imóvel ao cantar uma música inacabada de Roberto Carlos, de 1966. Não é nem pela canção, composta durante a explosão da Jovem Guarda e nunca gravada. É que Vicente se apresenta em frente a esculturas famosas na cidade, como as de Tom Jobim, Dorival Caymmi e Carlos Drummond de Andrade. Esta foi a forma que ele encontrou para divulgar ‘Você vai perder o seu bem’, composição que completou sem o aval do Rei.
— Daqui a pouco esta música se transforma no ‘Hino das Estátuas’. Sinto uma forte vibração. Até hoje reclamação zero — brinca Vicente Telles, que se tornou mais conhecido após protagonizar, em 1998, o quadro 'Faça-me sorrir", no Domingão do Faustão, na TV Globo.
Vicente conta ter encontrado Roberto Carlos, na Urca, há pouco mais de um ano. Na ocasião, mostrou, no celular, a sua versão da música.
— Roberto disse: ‘Ah, você é o tal, né bicho?’ Aí, eu respondi: ‘Não. Eu sou o parceiro do tal’ — relata Vicente, que costuma divulgar nas redes sociais que a música é dele, Roberto e Erasmo.
Brincadeiras à parte, Roberto Carlos, por meio da assessoria, ressaltou que tem apenas um parceiro: Erasmo Carlos. Se não for com Erasmo, compõe sozinho. Acrescentou ainda que, diferente do que já foi divulgado, ele registrou ‘Você vai perder o seu bem’ em 1966, o mesmo ano da gravação do ensaio contido na fita-cassete encontrada por Vicente.
Vicente também tentou registrar a música na Sociedade Brasileira de Administração e Proteção dos Direitos Intelectuais (Socinpro), mas não conseguiu porque a entidade identificou a duplicidade. Apesar do contratempo, Roberto Carlos não se manifestou contra as apresentações informais que Vicente faz com a música na Feira de São Cristóvão e em frente às estátuas, sobretudo na Zona Sul do Rio.
ROBERTO, ERASMO E VICENTE
Roberto Carlos até se lembrou do encontro com Vicente Telles e de terem feito uma foto juntos. Nada além disso. Já Vicente se recorda um pouco mais. Diz que depois de ter mostrado a sua versão da música, perguntou a Roberto se haveria algum problema.
— Na hora de sair, eu perguntei: ‘Roberto está tudo certo, né?’ Ele disse: ‘Tudo bem, bicho.’ Ele teve esta paciência comigo — reconhece Vicente, conformado com uma resposta não muito evidente.
As apresentações de Vicente Telles podem ser conferidas em sua página no Facebook ou no canal no Youtube. Ele conta que a ideia de usar as estátuas veio após uma caminhada pelo Calçadão de Copacabana. Sentado ao lado da escultura de Carlos Drummond de Andrade, pensou sobre os atos de vandalismo e decidiu cantar a música de Roberto para chamar a atenção para o problema.
— Valoriza todos os lados. É uma coisa muito nobre Drummond, a poesia de Roberto Carlos e eu posso estar incluído aí neste time. Fui valorizando as estátuas, e do Drummond passei a outras — explica Vicente, que consegue reunir banhistas e turistas em suas apresentações.
Roberto Carlos não explicou porque não completou a canção ‘Você vai perder o seu bem’. Mas ressaltou que, como outras canções que compôs, pode algum dia terminá-la. Mas, pelo jeito, Vicente não aguentou esperar. Ele diz ter levado um colecionador a sua casa, que lhe mostrou a fita. Ao colocá-la para tocar no aparelho, Vicente fez uma cópia sem que o visitante soubesse. O colecionador não quis vender a fita, mas Vicente ficou com a cópia.
Hoje, a fita já circula pela internet. É um ensaio de Roberto Carlos, com músicas que entraram no disco Roberto Carlos, de 1966, como ‘Namoradinha de um amigo meu’, ‘Eu te darei o céu’ e ‘Negro gato’. Na gravação, Roberto canta ‘Você vai perder o seu bem’ e diz que ainda não a finalizou. Em 2014, Vicente colocou mais uma estrofe e lançou a sua versão.
Mas, afinal, por que Roberto Carlos não gravou ‘Você vai perder o seu bem’? Para Vicente, Roberto descartou a música porque a harmonia é muito semelhante à ‘Namoradinha de um amigo meu’. Ficaria repetitivo em um mesmo disco.
— Acho que o Roberto não completou esta música, porque o repertório de 1966, que tem o Negro Gato, é um repertório mil. Não é dizer que essa música não seja mil. ‘Namoradinha de um amigo meu’ tem até aquela passagem ‘tchan, tchan, tchan...’ Ele deve tê-la deixado de fora pelo fato de já ter uma música com harmonia semelhante. E também para deixar pra mim.

