SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando Nicolas Winding Refn decidiu retomar o universo de "Pusher", filme que acompanha um traficante com dívidas estratosféricas, o diretor dinamarquês vivia uma situação parecida: ele devia um milhão de dólares pelo fracasso de sua terceira produção, "Medo X".
Com o sucesso do longa de estreia, projeto de orçamento modesto que conquistou público e crítica, a volta ao submundo de Copenhague lhe pareceu a opção mais segura. A trilogia, restaurada pelo cineasta e pela Mubi, estreia na plataforma no dia 18.
"Diante do desespero, você precisa ser muito criativo. Não existe o luxo de se pensar o e se . Você precisa enviar o roteiro, precisa receber a grana e precisa pagar o seu banco. Acho que os artistas fazem seu melhor trabalho quando precisam comer ou pagar o aluguel", diz Refn. Ele protagoniza o documentário "Gambler", que narra a superação da falência e chega à Mubi na mesma data.
Estrelados por seres violentos e inseridos em hierarquias nada confiáveis, seus enredos tomam ruas escuras e a máfia para debater a moral humana. Pressões extremas recaem sobre os homens e a busca por dinheiro justifica quaisquer meios.
No caso de "Pusher", a câmera sufoca os criminosos. Ela está sempre perto de seus rostos e não sobra margem para repensar decisões. Cada obra centraliza uma figura diferente, mas as relações pessoais enfrentam a mesma frieza. Interações terminam em socos e mulheres são relegadas ao segundo plano. Da dificuldade em reconhecer a paternidade à impotência sexual, as falhas cobram um preço.
"Nossos instintos podem ser facilmente reduzidos a "algoritmos de comportamento". Se considerarmos o tipo de entretenimento que chega ao grande público, existe uma fome enorme de masculinidade. Essa trilogia questiona o desejo desses homens autodestrutivos. A masculinidade é justamente o que os destrói", afirma Refn. A discussão ressurge em sua filmografia com o arquétipo do "herói silencioso".
Ao citar o viking de "O Guerreiro Silencioso", papel de Mads Mikkelsen, ou o dublê de "Drive", interpretado por Ryan Gosling, o cineasta inclui o feminino na equação. São personalidades melancólicas, assombradas pelo passado e que encontram na violência sua forma de expressão.
Ele descreve Miu, protagonista de sua minissérie "Copenhague Cowboy", disponível na Netflix, como assassina de "capacidade máxima para o masculino". Mesmo em "Pusher", de modo mais tímido, filhas e namoradas já se envolviam em negócios escusos.
"O mundo depende de equilíbrio. Eu sinto que agora ele precisa de masculinidade. Mas, ao mesmo tempo, quanto mais feminino você é, mais masculino pode parecer. Um só pode existir com o outro. Acho ótimos os questionamentos atuais sobre o que significa ser homem e o que significa ser mulher."
Apesar da sobriedade de seus primeiros passos, com o tempo Refn escolheu trabalhar mais cores e a direção se afastou do realismo. Se a trilogia é caracterizada por planos longos e pouco interfere nas vielas e depósitos que aprisionam os personagens, seus títulos se tornaram mais estilizados.
Em 2008, o ponto de partida foi uma história verídica. Conduzido por Tom Hardy, que fabula uma plateia imaginária ao explicar sua trajetória, "Bronson" retrata o reconhecido "prisioneiro mais violento da Grã-Bretanha". Entre sonhos e montagens rápidas, o longa pensa a agressividade de Refn sob a ótica do fantástico.
Talvez o ápice tenha vindo em 2013. Ao resgatar a parceria com Gosling, o cineasta faz de "Só Deus Perdoa" um experimento, despreocupado com começo, meio e fim. Ao seguir um lutador que tenta vingar a morte do irmão, tudo acontece numa dimensão onírica. Os cenários não parecem reais, e flashes invadem a imaginação do homem e vermelhos saturados anunciam o mal que está por vir.
"Sinto que comecei com filmes que tentavam capturar a realidade, mas percebi que nunca poderei controlá-la. Então resolvi filmar a 'irrealidade'. Não significa que as emoções dos personagens não sejam verdadeiras, mas o mundo ao redor não precisa ser", diz Refn. Fosse para telas grandes ou pequenas ele também assina o seriado "Muito Velho para Morrer Jovem", do Prime Video, suas gravações se tornaram uma espécie de pintura.
"Com as redes sociais, estamos sempre conectados com o real. Acho que isso provoca um desejo enorme pela fantasia."
Esse rumo foi bem recebido por grifes como a Prada e marcas de motocicleta como a MV Augusta, com as quais Refn dirigiu comerciais exibidos em grandes festivais. Ele diz ver o cinema, a televisão e a publicidade como irmãs para se explorar a criatividade.
É um caminho que soa ligado ao seu último longa lançado até o momento, em que abraça o terror. Dedicado a uma aspirante a modelo, "Demônio de Neon" troca o mundo do crime pelos holofotes da moda e explora uma rivalidade feminina que nasce da busca pelo sucesso.
Hoje, ele finaliza seu próximo filme, "Her Private Hell", sobre o qual pouco se sabe. Questionado pelo repórter, Refn afirma que não sabe o que esperar do projeto. Já se afastou do falido desesperado de duas décadas atrás.
"Para mim, a arte vem antes do dinheiro. Isso não exclui o dinheiro e nem os negócios, mas no final do dia você precisa criar com seu desejo, não com sua conta bancária."
TRILOGIA PUSHER
- Quando Estreia nesta sexta (18) na Mubi
- Classificação 18 anos
- Elenco Kim Bodnia, Mads Mikkelsen e Zlatko Burić
- Produção Dinamarca, 1996, 2004, 2005
- Direção Nicolas Winding Refn
GAMBLER
- Quando Estreia nesta sexta (18) na Mubi
- Classificação 18 anos
- Elenco Nicolas Winding Refn
- Produção Dinamarca, 2006
- Direção Phie Ambo

