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Fotógrafo ‘recria’ passagem de Missão Artística Francesa no Rio

RIO — A Missão Artística Francesa, que chegou em 1816 ao Rio de Janeiro, então capital do Reino de Portugal, transformou o panorama das artes, institucionalizou seu ensino na ex-colônia e produziu um importante legado iconográfico do período. Nomes como Jean Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay trouxeram ao Brasil teorias e técnicas difundidas na Europa, enquanto descobriam um inesgotável manancial de temas no Novo Mundo.

Agora, aqueles artistas viajantes do século XIX servem de inspiração à exposição “Missão Francesa”, que o fotógrafo paulistano André Penteado inaugura nesta sexta-feira (14 de julho) no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA). Com fotos clicadas no Rio, em locais como o Museu D. João VI (Escola de Belas Artes da UFRJ), o Solar Grandjean de Montigny (PUC-Rio) e o próprio MNBA, a mostra mistura imagens atuais que remetem ao passado e recortes de obras do passado que dialogam com a atualidade. Tudo em busca da herança deixada pela comitiva francesa no Rio.

— De certa forma, também me sinto um artista viajante. Sou um autodidata em arte, minha formação é em Administração Pública. Em 1993, comecei a trabalhar como assistente de fotografia, me formei dentro do estúdio. Em 2005 fui para Londres e passei sete anos fora do país, aprendendo na prática. No caso de “Missão Francesa”, trouxe esse olhar de estrangeiro para o Rio, buscando detalhes que ainda não havia percebido na cidade. Queria o maravilhamento do primeiro olhar — explica Penteado, vencedor do Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger 2012/2013 pela série “O suicídio de meu pai”, em que buscou expressar em imagens o vazio da perda.

A exposição conta com 33 obras, gestadas ao longo de dois anos. Entre 2015 e 2017, Penteado percorreu o Rio, à procura de ângulos inéditos ou incomuns que remetesse à Missão Francesa. A mostra exibe, por exemplo, um detalhe do retrato de Félix Émile Taunay, pintado em 1811 por seu pai, Nicolas-Antoine. Exibe também um grupo de alunos da Escola de Belas Artes da UFRJ, fundada em 1816. E, ainda, o lado de trás de uma escultura em mármore de Dom Pedro I, feita por Francesco Benaglia em 1828.

— O projeto tinha o desafio extra de criar novas imagens de uma das cidades mais fotografadas do mundo. Quis ver com outros olhos e entender essa cidade que já foi a capital do Império e ainda guarda muitos desses resquícios, não só na arquitetura e nos monumentos históricos, mas também no próprio jeito do seu povo. Existem alguns traços de gentileza no carioca que parecem remanescentes dessa herança imperial — diz Penteado.

Além de uma mostra, “Missão Francesa” é o título do segundo livro que Penteado lança no próximo dia 20, em São Paulo, pelo projeto “Rastros, traços e vestígios”. Iniciado em 2015 com a publicação de “Cabanagem”, em que retratou o Pará pela lente da revolta popular do século XIX, o projeto prevê a edição de cinco livros, tendo como ponto central a investigação de fatos históricos ocorridos antes da invenção da fotografia. Passado o trabalho com a Missão Francesa, o fotógrafo já vem se dedicando ao tema da Revolução Farroupilha, com imagens feitas em cidades do Rio Grande do Sul. Em seguida, pretende abordar o Descobrimento, na Bahia e em Portugal, e, por fim, a Independência, em São Paulo.

— A série vem do paralelo que existe entre o fotógrafo e o historiador: ambos estão calcados na realidade, mas o que vão produzir será resultado de suas leituras dos fatos — explica Penteado. — Levo uma média de 70 dias fotografando, e faço umas cinco, seis mil imagens diferentes para selecionar cerca de cem para entrar nos livros. Com os três primeiros livros, acabei fotografando no Norte, no Sudeste e no Sul, chegando à região de fronteira. Ganhei uma visão enorme de país, vi como somos gigantes, assim como são nossos problemas. Para além do tamanho, somos vários países dentro de um só, nenhuma solução será fácil.

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