RIO — O 15º Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens (FIL), evento que desde 29 de setembro traz uma programação composta por espetáculos, performances e ações interativas, nacionais e internacionais, encaminha-se para o seu último fim de semana em cartaz com uma atração inédita e pitoresca. Com toda a cara de “se vira nos 30”, o Palco Aberto FIL Petrobras, montado no Centro Cultural Banco do Brasil e no Centro Cultural dos Correios, recebe, até este domingo, artistas que têm a liberdade de apresentar, basicamente, o que quiserem. O resultado é instigante. Entre os números, há um homem que toca música no ritmo das batidas de seu coração e um outro que usa uma cadeira como instrumento de sopro.
— A ideia do Palco Aberto começou quando percebemos que não havia plataformas para todos os artistas e suas curiosidades criativas — explica a curadora e diretora do FIL, Karen Acioly. — Normalmente, os artistas estão dentro da “caixinha”, ou seja, fazendo teatro, circo ou artes visuais. Mas há aqueles que não se encaixam nesses espaços.
Ao todo, 75 artistas se inscreveram para participar, e 25 foram selecionados pelo júri. Eles disputam a preferência do voto popular para tentar se classificar para a grande final, neste domingo, no CCBB. O vencedor ganhará uma passagem para se apresentar no Festival Momix, na França.
O professor de artes visuais Robson Martins é quem comanda a performance “Concerto para uma cadeira”, neste sábado, no CCBB, a partir das 19h. Ele se define como uma pessoa que gosta de “criar objetos que possam produzir sons”. Um dia, viu uma cadeira abandonada na rua. E foi paixão à primeira vista.
— Veja bem... a flauta transversal é, essencialmente, um cano furado, certo? Quando olhei para a cadeira, tive a ideia imediatamente — ri ele, que tem 66 anos. — Levei a cadeira para casa, furei os pés de sustentação, inseri apitos nas extremidades e... não é que funcionou? Dá para criar notas musicais!
Em termos de criatividade, Robson Martins tem um rival à altura: o professor de música Leo Fuks. Em “Meu Kora-Som, não sei por quê”, que ele apresentou nesta sexta e agora espera repetir na final, caso seja classificado, um equipamento funciona como um estetoscópio, capturando os batimentos cardíacos do artista e levando-os a uma caixa de som. A percussão cardíaca — na falta de um termo mais adequado — serve de base rítmica para a apresentação de números musicais, que contam com o apoio de instrumentos variados, desde didjeridu, um instrumento de sopro dos aborígenes australianos, até sons eletrônicos produzidos por um aplicativo de celular. No número, Fuks ainda pedala uma bicicleta para variar a velocidade dos bastimentos cardíacos. Uma das músicas de seu repertório é “Carinhoso”, do Pixinguinha, cujo verso inspirou o nome da performance.
— Meu coração funciona como um metrônomo — compara ele. — Toco vários gêneros, até música indiana. A cidade é um ambiente de muitos ritmos. Tento competir com eles.
Além do Palco Aberto, o Centro Cultural dos Correios abriga, neste sábado, das 15h30m às 18h30m, performances de circo contemporâneo do Picante Circo, intervenções urbanas e desfile de com a artista uruguaia Gabriela Kolto.
— Estamos fazendo um festival de grande potência num momento de sufocamento, muito delicado — diz Karen Acioly, que, em tempos de censura nas artes e de crise econômica, conseguiu reunir atrações de Canadá, Romênia, França, Bélgica, Argentina e Colômbia, entre outras. — É quase como estar diante de uma invenção. Temos que seguir em frente, sem titubear.

