Início Arte e Cultura Brasil de Bolsonaro é refletido em montagens de Vianinha e Henrik Ibsen
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Brasil de Bolsonaro é refletido em montagens de Vianinha e Henrik Ibsen

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - De um lado, um prefeito negacionista que estimula o consumo de água insalubre. Do outro, um ditador populista que tenta a todo custo retornar ao poder de seu país censurando a imprensa e torturando opositores.

Imersas em textos clássicos, as peças "Um Inimigo do Povo", do dramaturgo e militante comunista brasileiro Oduvaldo Vianna Filho, e "Papa Highirte", do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, levam uma enxurrada de críticas políticas aos palcos do teatro Aliança Francesa, em São Paulo, neste mês, num momento em que é impossível não associar essas obras ao Brasil de hoje, marcado por uma intensa polarização, expansão de movimentos antidemocráticos e crescente onda negacionista.

"Um Inimigo do Povo", que está em cartaz desde quinta (7), evoca até mesmo as fake news de ciência que se espalham pelas redes sociais e tomam proporções gigantescas como perseguição a cientistas, desinformação e riscos letais. Não é nada difícil lembrar das mentiras sobre vacina contra Covid-19 que fazem tanto sucesso em correntes de WhatsApp --e bocas de governantes-- e levam inúmeras pessoas à morte.

Com direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, a peça narra a história do médico Thomas Stockmann --papel de Rogério Britto--, que descobre uma preocupante camada de contaminação das águas da cidade onde vive, mas é ignorado tanto por jornalistas quanto pelo prefeito, que é também seu próprio irmão. A narrativa acontece no Brasil de 2022.

Em vez de ser celebrado pela descoberta das pesquisas que poderiam prevenir problemas sanitários, Stockmann passa a ser visto como um inimigo, é ameaçado e perseguido, o que o diretor da peça relaciona com o contexto atual do Brasil.

"Existem muitos intelectuais, artistas e cientistas brasileiros que estão tentando dizer verdades, mas são sempre colocados como inimigos do país", diz Azevedo. "E é como se houvesse algo que permitisse tudo isso. Normalizamos absurdos que há dez anos causariam escândalos."

Assim como fez em outras peças que dirigiu, como "As Mãos Sujas", Azevedo leva elementos do cinema para "Papa Highirte", com uma câmera que grava as faces dos atores e exibe, num telão, cenas que rolam fora do palco.

Na mesma atmosfera política, "Papa Highirte", do Grupo Tapa, estreia dia 22, com referências a ditaduras latino-americanas, e cutuca um passado brasileiro que vem sendo enaltecido nos últimos anos.

A peça narra a história de um ditador fictício que, após ser afastado do poder, trava diversas tentativas de reconquistar seus tempos de barão --nos quais controlava a imprensa e torturava opositores--, mas percebe que, naquela época, era manipulado por golpistas que trabalhavam a serviço dos Estados Unidos.

Segundo o diretor do espetáculo, Eduardo Tolentino de Araujo, a obra "dialoga perfeitamente" com figuras como Getúlio Vargas e o argentino Juan Domingo Perón, devido à época em que se passa.

O ator protagonista, Zécarlos Machado, porém, afirma que "a peça faz um tipo de revisão histórica" e retrata situações que muito se encaixam no Brasil de Bolsonaro.

"'Papa Highirte' faz a gente entender o que estamos vivendo. Pessoas continuam sendo torturadas [mesmo após o período de redemocratização]", diz ele.

"É evidente também que há um temor instalado no país. Nós temos um presidente que celebra um torturador" --em 2016, Bolsonaro, então deputado, dedicou seu voto do impeachment de Dilma Rousseff ao general Carlos Alberto Brilhante Ustra, que a torturou durante a ditadura militar.

"A imprensa é perseguida e há quem fale em fechar o Congresso Nacional e ameace os ministros do Supremo", completa Araujo. "O que foi aquilo que vimos nos atos de 7 de Setembro do ano passado?", questiona ele em referência aos atos pró-Bolsonaro e pró-ditadura que dominaram o feriado da independência de 2021.

"No Brasil de hoje, existe uma máquina social criada para preservar a ignorância e difundir despreparo histórico, não é à toa que há gente defendendo os horrores que mostramos na peça."

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UM INIMIGO DO POVO

Quando Até 1º de maio (qui., sex. e sáb, às 20h; e dom., às 18h)

Onde Teatro Aliança Francesa. r. General Jardim 182 – Vila Buarque, SP

Preço Entre R$ 20 e R$ 60

Classificação 12 anos

Elenco Rogério Brito, Lilia Regina e Clara Carvalho

Direção José Fernando Peixoto de Azevedo

PAPA HIGHIRTE

Quando 22 de abril a 19 de junho (sex., e sáb., às 20h30, e dom., às 18h30)

Onde Teatro Aliança Francesa, r. General Jardim 182 – Vila Buarque, SP

Preço Entre R$ 20 e R$ 40

Classificação 14 anos

Elenco Adriano Bedin, Bruno Barchesi e Caetano O’Maihlan

Direção Eduardo Tolentino de Araujo

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